quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Fome: um projeto político?



Segundo o sociólogo suíço Jean Ziegler, relator para o Direito à Alimentação (2000 -2008) e membro do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos (2008 – 2012) da Organização das Nações Unidas (ONU), a produção agrícola mundial em 2009 poderia alimentar cerca de 12 bilhões de pessoas com uma dieta 2,2 kcal/dia. Entretanto, 56 mil pessoas são mortas pela fome diariamente.  Então, porque a Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO, em inglês) alega - e comemora – o quase cumprimento das metas estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (MDG, em inglês)? 

O artigo How We Count Hunger Matters nos mostra como diferentes parâmetros de pesquisa utilizados nos relatórios anuais da FAO - The State of Food Insecurity in the World (SOFI) ¬– podem levar a diferentes conclusões sobre o cumprimento das Metas do Milênio. A análise proposta no artigo nos faz pensar se a fome está a caminho de ser erradicada apenas em tese, se o discurso político é realmente condizente com a realidade ou se existe uma tentativa de enquadrar o problema em uma estatística aceitável. 

Os Objetivos do Milênio foram formalizados, em 2002, por dirigentes de 189 membros das Nações Unidas na expectativa de traçar metas comuns em direção ao progresso da humanidade. Os Estados participantes se comprometeram a apresentar em 2015 avanços mensuráveis nas áreas mais críticas do desenvolvimento humano. Para tanto, seria necessário começar garantindo a sobrevivência imediata de boa parte da população mundial: estimou-se nesse ano que cerca de 1,1 bilhão de pessoas estava obrigada a viver com menos de US$ 1 por dia. O primeiro desses objetivos, então, seria Erradicar a extrema pobreza e a fome.

Para quantificar esse objetivo, a FAO se utilizou de dados absolutos do período 1990-1992.  E a primeira crítica: por mais que a população mundial cresça ao longo dos anos, as metas foram estabelecidas de acordo com o número absoluto de pessoas famintas no período citado. Desse modo, o objetivo é erradicar a metade do número de famintos no período citado, e não 50% dos prováveis famintos em 2015. Outra crítica que os autores fazem à FAO está relacionada ao conceito fome, considerado como um estágio de subnutrição: quando a energia ingerida através dos alimentos é inadequada para cobrir as mínimas necessidades de um estilo de vida sedentário. 

Dessa definição, devemos nos ater a dois pontos importantes: considerar fome como sinônimo de subnutrição e também considerar a necessidade calórica de um indivíduo com estilo de vida sedentário. Estabelecer metas segundo a subnutrição não engloba estritamente todas as pessoas que passam fome no mundo e, além disso, considerar que os subnutridos apresentam um estilo de vida sedentário se afasta consideravelmente da realidade. Como o próprio SOFI’12 comenta, a maioria das pessoas que vivem na subnutrição realizam trabalhos mais árduos e pesados, necessitando ingerir mais calorias do que considerado em um padrão de vida sedentária.

Podemos nos perguntar, então, em quanto a meta para erradicar a extrema pobreza seria maior do que aquela meta apresentada pela FAO uma vez levando em conta 1) o mínimo de calorias necessárias para um estilo de vida de atividade normal ou real; 2) a média de calorias necessárias para um estilo de vida de atividade normal. Realizar essas alterações na metodologia de análise significaria aumentar o número de pessoas passando fome e, consequentemente, dificultaria o cumprimento da meta e traria consequências políticas. 

O intrigante é que a metodologia apresentada em The State of Food Insecurity in the World (SOFI, relatório anual da FAO) anteriores considera uma necessidade calórica diária de 2,2 mil kcal para não haver subnutrição, enquanto essa mesma necessidade no rela SOFI’12 é de 1,8 mil kcal. Uma diferença de 400 kcal/dia – ou de quantos gramas de feijão? Considerar a média de kcal necessárias em detrimento do mínimo implica na diferença conceitual entre fome e subnutrição, implica em o indivíduo estar saciado e não apenas com o mínimo de necessidade energética para suas atividades. 

Além do mais, fala-se em acabar com o estado extremo de subnutrição sem realmente considerar a qualidade nutricional dos alimentos ingeridos. O único aspecto considerado é a quantidade calórica – que se refere à energia disponibilizada ao organismo após o alimento ser metabolizado – e não se fala da quantidade necessária de proteína, carboidrato ou qualquer outro nutriente nessa alimentação. 

A nova metodologia traz mais alguns pontos a se pensar. Apesar de relatar a necessidade diária de calorias, ela leva em consideração um ano como medida de tempo. Isso significa que, para que a meta seja considerada cumprida, não importa se um faminto realmente teve acesso a 1,8kcal de alimento por dia, desde que a média anual do seu consumo alimentar gire em torno desse número. Essa metodologia desconsidera a fome em curto prazo, os episódios de fome que ocorrem em períodos de crises econômicas e de alta dos preços, de secas e más colheitas.  

Outra crítica gira em torno de mostrar a quantidade de pessoas famintas no mundo sem considerar as especificidades nacionais desses números. Segundo os dados apresentados pelo SOFI’12, o Vietnã e a China foram responsáveis por 91% do cumprimento da meta global, o Brasil e o Peru erradicaram a fome para 14 dos 15 milhões esperados para América do Sul, o que não significa que a Ásia ou toda a América do Sul não passam fome. Do mesmo modo, pouco se comenta que vários países africanos conseguiram reduzir consideravelmente seus índices, como é o caso de Gana, que apresentou o maior declínio mundial (87%) da fome. 

Um dos temas do SOFI’12 é o desenvolvimento global. Mas temos que nos perguntar: desenvolvimento para quem? Na verdade, o que causa o que? O que esperar sobre o desenvolvimento de países que apresentam altos índices de subnutrição e fome? O resultado da pobreza parece ser mais pobreza, fome gera mais fome. 

Por Andressa Mirely
Graduanda em Relações Internacionais - UFPB

Nenhum comentário :

Postar um comentário