terça-feira, 4 de junho de 2013

As respostas do corpo humano e da sociedade internacional à fome

Voltando ao básico da biologia e das concepções sobre a fome e segurança alimentar


Ação do World Food Program no Haiti, em janeiro de 2011, os trabalhadores recebem dinheiro e alimentos por seus trabalhos na construção de uma agricultura sustentável no país arrasado pelo terremoto em 2010. Reparem no termo “USAID”.
Algumas doações vêm com a seguinte frase: “Gift of” + o país de origem.
 

O combustível elementar para as atividades humanas (físico-biológicas, químicas, motoras e cognitivas) é a glicose (glucose), no entanto, outros nutrientes são fundamentais (proteínas, lipídios, fibras, ácidos graxos, etc). Incluem-se neste grupo as vitaminas e os sais minerais que, por não serem produzidos por nosso organismo, devem ser obtidas através de alimentação saudável e balanceada, isto é, composta pelas quantidades e variedades necessárias para atender às necessidades do organismo.

Mas a realidade mundial está longe disso, atualmente, segundo as entidades mundiais (FAO e World Food Program) 870 milhões de pessoas no mundo que passam fome. A população de mal nutridos no mundo é de 1 bilhão de pessoas – EUA, Canadá e UE juntas, ou seja, um sétimo da população mundial. Refletindo assim um quadro de insegurança alimentar, isto é, a falta de disponibilidade física do alimento. Assim, entre as causas da fome estão o baixo poder aquisitivo das populações. Isso porque a fome e a pobreza sempre andam juntas.


Tal contexto acarreta os diversos tipos de fome, que são “insuficiência ou ausência de calorias no organismo” (MALUF, 2007). Podem ser:
  • Fome aguda/ vontade de comer: “urgência de se alimentar, como tal, saciada por meio da ingestão de alimentos.” (MALUF, 2007).
  •  Desnutrição/ subnutrição/ fome oculta: “manifestação de sinais clínicos provenientes da deficiência ou inadequação quantitativa (energia) ou qualitativa (nutrientes) da dieta, ou ainda das más condições higiênicas e de doenças que comprometem o aproveitamento biológico dos alimentos ingeridos” (MALUF apud Josué de Castro, 2007)
  • Fome crônica: “condição na qual a alimentação diária não fornece energia suficiente para a manutenção do organismo e para o exercício das atividades cotidianas (...) é a deficiência energética crônica” (MALUF, 2007).
E com base no post Bioquímica da desnutrição a bioquímica e a fisiologia da fome serão expostas, para mostrar a mortal resposta do organismo à falta de nutrientes e energia:


O processo pelo qual o organismo começa a entrar em processo de falta de nutrientes acontece após poucas horas sem ingestão de nenhum nutriente, como no jejum noturno. Na fome aguda, o organismo responde à queda nos níveis glicêmicos com a sensação de fome. Se a restrição de alimentos se prolongar, o organismo com o objetivo de manter os níveis de açúcar no sangue e suprir os tecidos, faz o corpo buscar as reservas, os estoques de glicogênio hepático, inicialmente, e depois muscular. Então, o fígado – que apresenta estoque de glicose – será o responsável por manter os níveis estáveis no sangue. Dependendo da quantidade do tecido adiposo, o organismo passa a usar a reserva de proteína, que ao ser quebrada se transforma em aminoácidos.


Nas primeiras 24 horas de jejum é possível observar que: a insulina no sangue diminui, aumenta a quebra do glucagon em glicose, redução dos estoques de glicogênio hepático e muscular, e redução de algumas atividades metabólicas. Quando há a privação de água e comida, a morte é mais rápida.


A síntese de proteínas produz transformações na urina, que apresenta redução na excreção dos compostos nitrogenados (Amônia). Com o tempo isso danificará o sistema de excreção, intoxicando o organismo.

No jejum prolongado o organismo adapta-se com a diminuição do metabolismo. Diminuem os níveis de gordura e tecido muscular, provocando as características físicas da subnutrição. A perda do tecido adiposo, pode, por exemplo, gerar hipotermia. A partir daí, a restrição gerará mais sintomas, como a respiração mais profunda e rápida – a síntese de algumas degradações para a criação de energia do organismo não derivadas da glicose liberam moléculas ácidas, a mudança de PH do sangue o organismo força os pulmões e os rins tentam eliminar isso na urina. Nos casos graves, há fraqueza, sonolência, confusão mental e náusea progressiva, queda da pressão arterial, choque, coma e morte.


Há ainda o prejuízo na cadeia de reações, isto é, um desequilíbrio eletrolítico (de íons) devido a desidratação e jejum provoca a queda dos sais minerais essenciais na condução de mensagens elétricas para a coordenação das atividades celulares, dando origem a: fraqueza, câimbra, confusão mental, letargia, arritmia, etc. As alterações nos neurotransmissores geram alterações na percepção e na comunicação do Sistema Nervoso Central. Além de prejuízo na memória e processamento das informações.


Outro fator, a falta de vitaminas, causa a hipovitaminose, que geram diversas doenças e sintomas dependendo da deficiência da vitamina.


Nas mulheres há ausência de menstruação pela falta de moléculas básicas para a produção do estrógeno, o hormônio responsável pelo ciclo menstrual.


No caso da desidratação, há a progressiva falência renal e desequilíbrio eletroquímico, que provoca alteração nos batimentos cardíacos.


A redução do metabolismo do corpo leva a diminuição do ritmo cardíaco e respiratório, a pressão sanguínea e a temperatura, mudanças hormonais e o enfraquecimento do sistema de defesa do organismo.


Em cerca de 15 dias de privação, a pessoa já pode morrer, porque o rim para e há o acúmulo de toxinas, o equilíbrio químico do corpo é desfeito e o sistema neurotransmissor é comprometido até que o coração pare.


Há uma discussão sobre sentir ou não esses dolorosos sintomas da morte, em duas linhas: devido ao estado vegetativo constante/ coma (devido a produção de substâncias anestésicas e intoxicantes) a morte é indolor; ou aqueles que indicam que a privação mata em duas semanas, após picos de ansiedade, convulsões, queda da pressão, coma, auto-ingestão do organismo e a parada do coração e pulmões.


Como pode-se perceber, existe uma gradação entre esses tipos de fome e seus danos ao organismo, chegado até o estado terminal e à morte: “A fome mata mais pessoas anualmente do que AIDS, malária e a tuberculose juntas” (ONU)


A partir dessa compreensão da gravidade, a comunidade internacional também responderá ao problema da fome no mundo. O desenvolvimento de concepções sobre a segurança humana (no sentido de integridade física) e o campo dos Direitos Humanos apresentam parâmetros que incluem a fome como um problema internacional. A partir disso, criou-se a oportunidade de crias instituições para tratar do problema, tendo como papel a coleta dados, monitoramento e planejamento de políticas e ações de combate e controle da fome no mundo. E empenham-se em divulgar uma verdade sobre a fome:


“A fome é o único grande problema solucionável que o mundo enfrenta hoje.” (ONU)


Isso reintera o contexto de alimentos suficientes para alimentar a população mundial derivadas das políticas de segurança alimentar e da revolução verde dos anos 70 – tornando a fome um problema político-econômico no que se refere a oferta dos alimentos e poder aquisitivo das populações mais vulneráveis (gerando a insegurança alimentar), como nos lembra Jomo Kwame Sundaram neste artigo.


Um documento interessante, embora desatualizado de 2009, é o World Hunger Series: Hunger and Market, que mostra a relação mercado-fome com direito a muitos gráficos e esquemas sobre o assunto. Está disponível aqui.


Assim, a comunidade internacional articula há algumas décadas ações de combate a fome, que tem conseguido resultados. Neste sistema, existe uma rede internacional de programas de segurança alimentar, valorizando a soberania alimentar e a agricultura sustentável. As ações se mostram também em um elaborado sistema de programas de assistência alimentar, tanto permanente como em casos de emergências. 

Muitas assistências alimentares passam pelo WPF da ONU, e em visita ao site encontrei a seguinte campanha: http://quiz.wfp.org/:, é um quiz e quem respondê-lo adquire informações sobre a situação da fome no mundo e ainda contribui com a alimentação de uma criança.


Referências Bibliográficas:

MALUF, Renato S.J. Segurança Alimentar e Nutricional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007

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