quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Novo site do FomeRI

O novo site/blog do FomeRI está no ar. Um dos destaques é o visual totalmente repaginado e um layout mais atrativo e intuitivo para os leitores assíduos da página. Além disso, o novo site está sendo frequentemente atualizado com notícias, artigos e divulgações de eventos relacionados a nossa área temática.
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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A FAO sob liderança chinesa: a comida como indicador da ordem liberal internacional?

A escolha do chinês Qu Dongyu para o cargo de diretor geral da FAO pode fazer desta organização um ponto privilegiado de observação da estratégia geral da China para as relações internacionais. Embora o cargo de diretor seja uma posição institucional e, portanto, não corresponda ao mandato de um país, sabe-se que o diretor geral da organização possui espaço para estabelecer prioridades e privilegiar algumas agendas. O brasileiro José Graziano da Silva, por exemplo, buscou difundir políticas que ressoavam experiências brasileiras, como o Programa de Aquisição de Alimentos, enquanto ocupou o cargo de diretor geral da FAO. No mesmo sentido, durante o período de Graziano observou-se uma agenda mais receptiva a políticas e práticas que visavam o desenvolvimento local e regional adequados às peculiaridades/características dos países em desenvolvimento no que concerne a questão alimentar. Isto, contudo, não significou que a FAO tenha modificado sua orientação geral de advogar a industrialização da agricultura como forma de aumentar a produção e a produtividade, nem a liberalização econômica internacional como método para ampliar a oferta de alimentos, os investimentos no setor agrícola e, em última instância, o combate à fome.

O fato é que a China, diferentemente do Brasil, é uma grande potência que caminha a passos largos para o topo da hierarquia de poder internacional. Nessas condições, cresce a expectativa sobre se a China buscará desempenhar um papel hegemônico, no sentido de disputar, pelas ideias, a primazia sobre como a sociedade global deverá se organizar para superar seus problemas. A liderança de Qu Dongyu dará indícios da atuação da China como potência revisora ou mantenedora de uma ordem econômica internacional liberalizante?

Ao longo de uma história milenar a China sofreu com longos períodos de fome e carestia, inclusive impostas por influências invasoras e por conflitos, que deixaram marcas profundas na sociedade. De fato, a questão da alimentação é pilar de sustentação do Partido Comunista, que assumiu como missão fundamental superar esse flagelo. Ao retirar mais de 600 milhões de chineses da condição de miséria nos últimos 30 anos, criou-se também a necessidade de se alimentar esta população distribuída nas áreas rurais e urbanas. Para isso, a China possui uma doutrina nacional de autossuficiência na produção de alimentos básicos. Consequentemente, fomenta o desenvolvimento da produção nacional e possui estoques estratégicos de alimentos dentro e fora das suas fronteiras, seja para consumo próprio, seja como facilitadores logísticos para plataformas exportadoras. Por outro lado, a China investe intensivamente no desenvolvimento da produção e da logística para exportação de alimentos em outros países mirando alguns objetivos, a saber: criar uma fonte confiável para importar parte dos alimentos que necessita para compor sua oferta interna; baratear os preços internacionais; e investir seu capital num setor promissor. Há, ainda, um elemento crucial para a conjuntura chinesa atual: ao obter fontes de fornecimento que possam reduzir ou manter o custo de produção doméstica, seja de alimentos seja de insumos produtivos, o governo chinês mantém o poder de compra do trabalhador e segura um eventual impacto inflacionário. Contudo, para que essa dinâmica funcione, é preciso que vigore uma ordem econômica internacional predominantemente liberal, ou seja, baseada no livre fluxo de capital e de mercadorias no mercado internacional.

Há aí um potencial paradoxo: a China irá utilizar o mandato de Qu Dongyu para difundir internacionalmente uma política de autossuficiência como melhor método para alimentar as nações, espelhando sua própria doutrina nacional, ou irá sustentar o tradicional discurso da FAO de que a segurança alimentar é mais facilmente alcançada quando o livre-comércio oportuniza maior oferta de alimentos, a preços mais baixos, por meio da competição internacional?

Note-se que todas as grandes potências adotam, direta ou indiretamente, uma política de autossuficiência alimentar para produtos básicos e que todas elas são – quando a geografia permite – grandes exportadoras de alimentos. Resulta disso uma grande hipocrisia uma vez que grandes potências tendem a adotar medidas protecionistas relacionadas ao setor agroalimentar enquanto recomendam, simultaneamente, via uma retórica liberal que norteia as organizações internacionais, políticas como a privatização de estoques reguladores e o não controle de preços.

De fato, a China não toma decisões alinhadas ou alinhando-se com as potências tradicionais: EUA, União Europeia e Japão. Beijing tem uma forma própria de pensar as instituições internacionais, seu papel e sua utilidade. Aceita e reforça a ordem econômica internacional liberal quando é do seu interesse, do mesmo modo que pratica políticas não liberais conforme seus objetivos, vide a proibição da venda da terra e a própria política de autossuficiência alimentar. É neste sentido que a ascensão de um chinês ao comando da FAO permitirá observar se a China será uma grande potência normal – defensora do status quo – ou se proporá ao mundo uma forma alternativa de solucionar talvez o principal flagelo histórico da humanidade: a fome.

Alexandre C. C. Leite e Thiago Lima são professores do Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública e Cooperação Internacional da UFPB

Publicado originalmente em Carta Maior: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Poder-e-ContraPoder/A-FAO-sob-lideranca-chinesa-a-comida-como-indicador-da-ordem-liberal-internacional-/55/44839
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segunda-feira, 17 de junho de 2019

“II Seminário de Estrangeirização de Terras e Segurança Alimentar e Nutricional”, 04 e 05 de julho na UFPB

O “II Seminário de Estrangeirização de Terras e Segurança Alimentar e Nutricional” terá como tema: “A agroecologia como alternativa?”. Seu propósito é reunir pesquisadores de diversas áreas do conhecimento para realizar palestras e travar debates em profundidade sobre o tema, a partir de uma perspectiva inerentemente interdisciplinar.

Confira a programação completa aqui: https://fomeri.wixsite.com/setsan


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sexta-feira, 3 de maio de 2019

A extinção do CONSEA é retrocesso que impacta a mesa dos brasileiros, por Jenifer Santana


A pasta da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) sofreu ataques logo no primeiro dia de exercício do mandato do Presidente Jair Bolsonaro. A Medida Provisória nº 870 promulgada no dia 1º de Janeiro desse ano, extinguiu na prática o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), órgão tão caro para a construção histórica de Políticas Públicas centradas no combate à fome, promoção da SAN, e não violação do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA).

O CONSEA foi criado em 1993 no governo de Itamar Franco. O Conselho nasceu como uma demanda proveniente da sociedade civil organizada. Num espectro histórico, assumiu o marco de ser uma tentativa pioneira de promover a discussão sobre Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) em um ambiente político fundamentado na participação social e na integração de diversos setores. Devido a pouca aderência à temática na agenda política da época, o órgão foi extinto em 1995 durante o governo FHC pelo Decreto nº 1366, mas veio a ser recriado no governo Lula oito anos depois.
Resultado de imagem para consea extintoA composição do CONSEA foi estabelecida de forma a possuir 2/3 de seus membros provenientes da sociedade civil (40 membros) e 1/3 do governo (20 membros). Além dos Conselheiros, o órgão seria composto por uma Secretaria Executiva, uma Mesa Diretiva, Comissões Permanentes e Grupos de Trabalho e a Comissão de Presidentes de Conselhos Estaduais e do Distrito Federal de Segurança Alimentar e Nutricional. O Conselho defendia um modelo de produção (sistema alimentar) saudável, sustentável, agroecológico, justo, e que respeitasse a diversidade dos sistemas produtivos. Todas suas ações centravam-se em assegurar a não violação do DHAA.
Após sua recriação, o CONSEA assumiu de fato sua posição de assessoramento à Presidência da República, sendo responsável institucionalmente pelo controle social na formulação, execução, e monitoramento da Política e do Plano Nacional de Segurança Alimentar (PNSAN e PLANSAN). Essas prerrogativas de atuação e outras mais, foram instituídas através da adoção da LOSAN (Lei nº 11346), considerada um dos expoentes da atuação do CONSEA nos últimos anos. A LOSAN instituiu em seu Art. 3º o conceito de SAN, e no seu Art. 7º estabeleceu o Sistema Nacional de Segurança Alimentar (SISAN), somando às atuações do SUS e SUAS.
            O SISAN foi criado visando ser intersetorial; voltado à implementação do PNSAN e dos PLANSAN; destinado a fomentar esforços de integração entre sociedade civil e governo; e centrado em realizar o acompanhamento, monitoramento e avaliação de Políticas Públicas de SAN. A composição do SISAN foi estruturada a partir da união de dois órgãos: o CONSEA e a CAISAN (Câmara Interministerial de SAN). A CAISAN seria integrada por vinte ministérios, os quais trabalhariam na articulação intersetorial de programas e ações de SAN, e na gestão, monitoramento e avaliação do PLANSAN.  Posteriormente, o Decreto 7272/2010 instituiu as particularidades da Política Nacional de Segurança Alimentar (PNSAN). Determinou-se que a Política seria implementada a partir do PLANSAN, e a construção do PLANSAN, por sua vez, também seria feita por meio duma atuação conjunta do CONSEA e da CAISAN.
            Minha chegada ao CONSEA aconteceu em 2017, quando houve a renovação de 60% dos Conselheiros que integravam a instituição desde a década anterior. A 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional realizada em Novembro de 2015, aprovou a criação de um segmento da juventude dentro órgão, a fim de tratar de forma mais assertiva das demandas desse público dentro do órgão. Como estudante de Relações Internacionais, minha aproximação do tema da SAN veio a partir do próprio FomeRI, desde sua criação em 2012. Ali passei a ter contato com a temática e estudar as diversas relações do tema com a agenda de Relações Internacionais. Minha entrada no CONSEA, também veio como fruto da atuação na ONG Engajamundo, voltada para a capacitação de jovens para atuação em instâncias de tomada de decisão. O Engajamundo foi convidado a ocupar uma das cadeiras destinadas ao segmento da juventude no órgão, e como era uma das que lidava de forma mais direta com o tema dentro da ONG, me indicaram para o cargo. A chegada da juventude no CONSEA se deu num contexto bastante desafiador. Já no governo Temer, atravessávamos um cenário de bastante corte no orçamento de diversas Políticas Públicas de SAN, experimentando um retrocesso em conquistas históricas da luta pela não violação do DHAA. Ao invés de avançar na agenda da juventude, nos juntamos aos outros Conselheiros nas diversas plenárias que tivemos para discutir os desafios enfrentados.
A Medida Provisória nº 870 decretada pelo presidente Bolsonaro no dia 1º de Janeiro de 2019 veio para agravar os desafios já postos. A MP revogou o Art. 11 da LOSAN, retirando tanto a atuação do CONSEA dentro do espectro do SISAN, quanto sua posição de assessoramento direto à Presidência da República e desarticulando na prática o controle social do arcabouço institucional centrado na formulação, monitoramento e avaliação das Políticas Públicas de SAN.
Sem dúvidas a desestruturação do CONSEA consiste em algo bastante preocupante. A maioria das políticas aprovadas no Brasil e reputadas internacionalmente como responsáveis por tirar o país do Mapa da Fome da FAO em 2014, surgiram também por demanda, articulação e atuação incansável do Conselho Nacional e dos Conseas estaduais de SAN. A consolidação do DHAA como direito social no Artigo 6º da Constituição Federal (Emenda Constitucional 064/2010), o PNSAN e o PLANSAN; os Programas de Convivência com o Semiárido; o Plano Safra da Agricultura Familiar; o Guia Alimentar da População Brasileira; e a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, consistiram em algumas das proposições inovadoras arquitetadas ou amparadas pelo CONSEA buscando assegurar aos brasileiros o DHAA. Ademais a própria estrutura participativa de construção de Políticas de SAN empregada no SISAN foi considerada modelo para vários países.
Várias entidades já reagiram de forma contrária a extinção do órgão, dentre elas a Associação Slow Food Brasil, o Conselho Federal de Nutricionistas, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, e o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.  Além disso, audiências públicas e sessões especiais foram realizadas na Câmara dos Deputados[1], Senado Federal[2] e algumas Assembleias Legislativas Estaduais, como a da Paraíba[3], para defender a permanência do Conselho. Em medida mais recente (1º de maio de 2019), o Ministro Marco Aurélio acatou liminar do Partido dos Trabalhadores em defesa dos conselhos participativos e solicitou votação urgente no STF. Na ação direta de inconstitucionalidade o PT alegou que a extinção dos conselhos, na MP de Bolsonaro, infringe o arcabouço constitucional de formulação e implementação de políticas públicas, que requere um controle social.
Enquanto o processo relacionado a MP segue seu fluxo, não podemos saber ao certo seus resultados. Contudo, para mim fica evidente que a desconstrução desse Conselho representará um retrocesso nas conquistas que impactaram diretamente na mesa dos cidadãos brasileiros. Por ser o alimento algo tão básico e primordial, não pode estar subjugado a jogos de interesse que ao final do dia privilegiem um modelo de produção e consumo que não seja acessível, sustentável, saudável, justo e inclusivo.
           
Jenifer Queila Santana
Conselheira do CONSEA
Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco
Pesquisadora do FomeRI

Referências
Forum - https://www.revistaforum.com.br/marco-aurelio-acata-liminar-do-pt-em-defesa-dos-conselhos-e-pede-votacao-urgente-do-stf/
Participação em foco - http://ipea.gov.br/participacao/noticiasmidia/participacao-institucional/conselhos/1796-extincao-do-consea
Plano Nacional de Segurança Alimentar (2016-2019­) – Impresso

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