Resenha
referente ao livro "Segurança Alimentar e Nutricional", escrito por
Renato Sérgio Jamil Maluf e publicado em 2007.
O enfoque no
tema “segurança alimentar e nutricional” é objeto de estudo há décadas pelos
mais variados pesquisadores ao redor do mundo. A questão vem tomando grande
repercussão ao passar dos anos, de modo que os mais diversos problemas causados
pela tal insegurança alimentar, como a fome, a subnutrição e a obesidade, são
alvo de políticas estatais para sua erradicação.
Renato Sérgio
Jamil Maluf, grande estudioso do tema, dedicou boa parte de sua vida acadêmica
na área e lançou, em 2007, o livro intitulado de “Segurança Alimentar e
Nutricional”, onde apresenta conceitos básicos sobre o conteúdo de forma
simples, mas completa. O autor faz uma caminhada desde as origens da concepção
alimentar, pós guerras mundiais e crise de 1929, onde a questão da fome era fator
decisivo para o que estava por vir no processo de (re)desenvolvimento econômico
dos países, afunilando as ideias até chegar ao Brasil atual e suas políticas
locais.
Para Jamil
Maluf, a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) está diretamente ligada à como
famílias e grupos sociais se apropriarão dos bens alimentares - por meio da
alimentação -, de modo que a ingestão destes de forma inadequada pode
comprometer a saúde e a qualidade de vida dos consumidores.
De acordo com o que foi
estipulado pela Segunda Conferência Nacional de SAN, em 2004, sua concepção é
um pouco mais complexa: ela deixa claro que segurança alimentar e nutricional é
a realização do direito ao acesso a alimentos de qualidade e em quantidade
satisfatória, sem comprometer outras necessidades essenciais, respeitando as
diversidades culturais, sociais e econômicas da região, além de ser
ambientalmente sustentável. “Estar livre da fome é direito dos povos” (MALUF,
2007, p. 21).
Vale salientar que a existência
de várias definições de SAN pode ser explicada pela evolução de sua compreensão
e que todos os significados se interligam buscando um mesmo objetivo. A
participação nesse campo é bastante ampla, o que facilita o envolvimento de não
somente governos e representantes de setores produtivos, mas como também de
organismos internacionais, organizações civis e movimentos sociais.
É fato que boa parte do
sofrimento que a população passa está relacionada a questões de cunho
alimentar, seja por sua ausência ou má qualidade. Esse cenário é causado – e
agravado – pelas desigualdades sociais, onde encontra-se o acesso custoso dos
alimentos por parte da população e o enriquecimento fácil de corporações
industriais pelas produções agrícolas.
Objetivo da SAN
O objetivo da
SAN no Brasil e no mundo, então, associa-se ao monitoramento e avaliação dessas
ações (acesso custoso ao alimento e enriquecimento de grandes conglomerados
industriais), de modo que seu conceito se torne um objetivo público a ser
alcançado como política de Estado. A SAN foca na ampliação do acesso aos
alimentos e no questionamento do padrão do consumo alimentar, ao sugerir formas
mais iguais e sustentáveis de produzi-los e comercializá-los.
As suas bases evolutivas são
voltadas para as questões socioeconômicas, de saúde e nutrição, subordinados
aos princípios de direito humano à alimentação adequada e saudável e
à soberania alimentar; tudo vinculado à intersetorialidade,
fator que se destaca na projeção dos objetivos de SAN como política pública.
Para construção dessa
intersetorialidade, há dois caminhos: o primeiro percorre a formulação de
programas integrados, enfrentando as normas convencionais da organização da
estrutura do Estado e o segundo se dá pela introdução do enfoque da SAN nos
programas já existentes, principalmente aqueles considerados basilares.
A questão da soberania alimentar,
ligada à concepção de ordem internacional, vem sendo trabalhada desde a década
de 90, onde sua principal motivação foi dar uma resposta à perda de capacidade
dos Estados de construção de políticas (agrícolas e alimentares) no contexto da
internacionalização da Economia (MENEZES, 2001 apud MALUF, 2007).
O conceito estende-se também para a noção de que
povos têm direito de definirem suas estratégias de produção, distribuição e
consumo de alimentos para sua população, tendo em vista sua própria cultura e
diversidades, sem avançar na soberania de outros países. O alimento precisa
estar de acordo com os hábitos culturais, ser de base saudável e que preserve
prazer associado à sua ingestão.
No que diz respeito à segurança e
estabilidade alimentar nos países avançados, Jamil Maluf diz que buscar a
estabilidade do abastecimento (alimentar) através da sustentação da produção
doméstica de alimentos estratégicos (food security), juntamente com
complementação do abastecimento interno por meio do comércio internacional são
ações adotadas em busca da promoção do acesso ao alimento pela população.
Além disso, pode ser observada a
prática de escoar excedentes agrícolas através de exportações subsidiárias para
países pobres em forma de doações, o que acabou introduzindo novos produtos nas
práticas alimentares dos países, como a difusão do trigo e derivados na América
Latina. Essa prática pode gerar aspectos negativos nos países recebedores,
principalmente sobre os pequenos produtores de alimentos.
O autor, ao longo do seu livro,
também apresenta o conceito de “regime alimentar” – inicialmente
introduzido no mundo
acadêmico por Harriet Friedman e Philip McMichael (1980) – cuja compreensão
ajuda no melhor entendimento do papel das políticas agroalimentares nacionais e
das tenções por elas causadas no plano internacional.
O antigo regime se baseava na
importação europeia de trigo de suas colônias; já o novo é caracterizado por
ser um “regime de excedentes” consolidado no período pós-segunda guerra
mundial, onde o modelo de produção agrícola era intensivo, apoiado por subsídios às
exportações e restrições às importações. Vale salientar que, mesmo sendo
considerado novo, o “regime de excedentes” já sofreu diversas transformações,
desde 1970, direcionando seu foco do escoamento de tais excedentes para a
promoção do desenvolvimento.
Segurança Alimentar no Brasil
No que diz respeito à construção
do conceito de segurança alimentar e nutricional no Brasil, é necessária uma
viagem um pouco mais longa até 1946, com o lançamento do livro “Geografia da
Fome”, por Josué de Castro. O autor, conhecido por ser o pioneiro do conceito
no Brasil e famoso ao redor do mundo pelas suas ideias, falava sobre a relação
entre o biológico, o econômico e o social enrustida na ideia de fome, e que
esta era fruto do subdesenvolvimento.
Ainda, Josué de
Castro acreditava que o "círculo vicioso da pobreza" alimentava a
miséria e a desnutrição, colocando a fome como um problema ético (MAGALHÃES,
1997). Sua pesquisa voltava-se para o que chamava de “fome oculta”,
caracterizada pela escassez de certos elementos nutritivos na dieta e pelas más
condições higiênicas e de doenças que comprometem o aproveitamento biológico
dos alimentos ingeridos.
Desse modo, desde o início da
Nova República, em 1985, o país apresenta propostas de políticas contra a fome
e para a instituição de um conselho nacional de segurança alimentar, futuro
CONSEA, que buscava atender às necessidades alimentares da população e promover
a suficiência produtiva nacional da produção de alimentos. Nos governos
FHC e Itamar Franco, os movimentos contra a fome, apesar de turbulentos, também
originaram vários projetos, introduzindo a segurança alimentar na agenda
nacional.
Outra faceta do largo conceito de
segurança alimentar e nutricional, além da intensificação da produção dos
alimentos (food security) e da regulamentação dos fatores que afetam
essa segurança (food safety), é a adoção de programas alimentares
voltados para populações carentes para suplementação de suas rendas.
O primeiro grande projeto de
assistência ao desenvolvimento social quanto à segurança alimentar e
nutricional no Brasil foi o "Projeto Fome Zero — uma política Nacional de
Segurança Alimentar para o Brasil", lançado em 2001 pelo Instituto
Cidadania, com o objetivo de combater a fome nos segmentos de pobreza extrema, assegurando
alimentação regular às pessoas nas três refeições diárias, – uma
vez que a pobreza (falta de poder de compra suficiente para a dieta) é
considerada uma das principais causas da fome e desnutrição.
Inspirado no Food Stamp
Program estadunidense, “o programa foi lançado com a pretensão de
cobrir, no horizonte de quatro anos, um universo estimado de 44 milhões de
pessoas (27, 8% da população total), pertencentes a 9,3 milhões de famílias (21,9% do total)" (MALUF, 2007, p. 91).
O Projeto Bolsa
Família, lançado em 2004 no governo Lula, sucedeu o Fome Zero ao unificar
diversos outros programas de promoção de transferência de renda para as
famílias como a Bolsa Alimentação, Bolsa Escola, Cartão Alimentação e Vale Gás.
Além disso, o projeto estabeleceu novos critérios de participação e buscou sua
universalização com o objetivo de atingir todos municípios do país e chegar, em
2006, à marca de 11,1 milhões de famílias atendidas pelo projeto.
Assim, os programas de
transferência de renda tornaram-se elementos de destaque na agenda nacional de
SAN no Brasil e no mundo no que diz respeito ao combate da fome e desnutrição.
Vale salientar que, infelizmente, muitos desses programas constituem campo
propício para práticas populistas, dando margem à execução de desvios de verba
pública e corrupção.
Quando se fala de fatores
utilizados para demonstração e manifestação da insegurança alimentar, Jamil
Maluf elenca alguns que, para ele, são formas de evidenciar que os mais pobres
estão mais expostos a tal insegurança, como o nível da renda, a condição
geracional, de gênero e as raízes étnicas da população.
O nível da renda é
relevante pois determina o poder de compra dos salários, sendo a alimentação a
maior parcela retirada da renda familiar total da população. As questões
geracionais, de gênero e étnicas são notáveis ao ser reparado que idosos,
mulheres e crianças enfrentam carências específicas comparados aos homens e
mais jovens. Além disso, índios e negros compõem parcelas significativas
no segmento de massas sob risco de fome.
Desde 2003, no Brasil, está em
curso a reorientação de ações e políticas da SAN voltadas para a questão
alimentar com a participação das três esferas do governo, atuando em políticas
vezes no âmbito dos estados e/ou dos municípios. O país, como república
federativa, compartilha autonomia aos estados e municípios para tratarem de
questões que lhes são específicas; essas iniciativas locais geram trabalho,
ampliam o acesso à renda e aos alimentos e diminuem, consequentemente, os
índices de desemprego e de pobreza.
As diretrizes gerais dessa
política estatal de SAN em construção são a promoção do direito à alimentação
adequada e saudável; assegurar o acesso à alimentos de qualidade através da
geração de trabalho e renda, regulando condições de disponibilização de
alimentos; promover a produção rural e urbana e comercialização de
alimentos de base equitativa sustentável e culturalmente adequada, dando ênfase
na agricultura familiar de agroecologia; transversalidade das ações através de
planos articulados em diversos setores e participação de iniciativas não
governamentais; respeitar equidade de gênero e étnica e reconhecer
diversidades, valorizando culturas alimentares; e, por último, reconhecer
a água como alimento essencial e parte do patrimônio público.
Somados a todas essas diretrizes,
o papel da SAN ainda permeia o campo educativo com o aprimoramento de hábitos e
noções de higiene para prevenção de doenças, como também a conscientização dos
direitos do consumidor e do cidadão e a valorização de aspectos culturais,
ambientais e sociais da produção e distribuição de alimentos. É válido
salientar que a dificuldade na obtenção de relatórios de execução dos programas
públicos da parte dos setores responsáveis é acrescida pela carência de
legitimidade das instâncias ligadas a SAN.
Finalmente, o autor conclui sua
obra de forma otimista, alegando que o Brasil tem apresentado indicadores
positivos quanto a redução de pobreza extrema, mesmo que muitos fatores
causadores da iniquidade social e comprometedoras do meio ambiente ainda
permaneçam. Ele justifica os avanços na sustentabilidade ambiental e equidade
social através da estratégia adotada de somar programas sociais de longo
alcance, ao lado de modelos econômicos iníquos assentados na concentração das
atividades.
No entanto, Jamil
Maluf também apresenta desafios a serem enfrentados no interior dos governos e
da sociedade brasileira ao longo dos próximos anos, como a “recuperação do
papel do Estado e seus instrumentos de regulação das atividades econômicas” (MALUF,
2007, p. 160), além da prioridade que foi conferida ao comércio internacional e
suas implicações no que diz respeito à soberania alimentar, sem mencionar nos
modelos de produção agroalimentar que necessitam de estímulo e a importância da
agricultura alimentar no cenário da segurança alimentar e nutricional.
Ao comparar a perspectiva
apresentada por Maluf, de 2007, com o atual cenário mundial de SAN de acordo
com o Relatório publicado pela FAO – “The state of food insecurity in the
world” –, de 2015, são percebidos grandes avanços. Segundo a pesquisa, 72 de
129 países monitorados alcançaram seus objetivos de reduzir à metade o número
de pessoas com fome desde o lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento do
Milênio (ODM), pelas Nações Unidas.
No Brasil, de
acordo com o Relatório do CONSEA – “A segurança alimentar e nutricional e o
direito humano à alimentação adequada no Brasil” –, realizado em 2010, as
indicações positivas também são aparentes. Produto de diversos setores
envolvidos no tema, o número de pessoas em insegurança alimentar no país vem
caindo de forma progressiva, o que mostra que medidas feitas anteriormente em
meio a políticas públicas no que diz respeito a luta contra fome e a pobreza
foram bem sucedidas.
Entretanto, ainda de
acordo com o Relatório do CONSEA, é necessária uma atenção especial para os
desafios que, infelizmente, ainda persistem nesse meio, como as contínuas
desigualdades de renda, de gênero, raciais e étnicas e a concentração de terras
e, também, para os novos desafios. O aumento do consumo de alimentos com alto
teor de gordura, sal e açúcar, encontrados principalmente em refeições prontas,
juntamente com a redução de alimentos essenciais como arroz, feijão, frutas e
hortaliças e a liberação de transgênicos são exemplos desses novos obstáculos a
serem enfrentados pelos próximos anos.
De certa maneira, as sementes
de uma política universalista de promoção do direito à alimentação já foram
lançadas dentro das bases da “segurança alimentar e nutricional”, mas como
faz referência Jamil Maluf, a insegurança alimentar existe e expõe a esta
realidade os mais pobres com o acesso custoso dos alimentos. Assim,
como foi dito, o nível da renda determina o poder de compra dos salários, sendo
a alimentação a maior parcela retirada da renda familiar. Este realmente é um
círculo vicioso da pobreza que alimenta a miséria e a desnutrição, colocando a
fome como um problema ético, na visão de Josué de Castro, e um problema social,
econômico, universal, exigente de ações mais decisivas e desafiadoras e cada
vez menos evasivas conforme meu entendimento.
*Por Luiza Bandeira
de Mello Vasconcelos
(Graduanda de
Relações Internacionais pela UFPB, Bolsista de Iniciação Científica vinculada
ao FomeRI)
Referências:
MALUF, Renato
Sérgio Jamil. Segurança Alimentar e Nutricional. Petrópolis:
Editora Vozes, 2007. 174 p. (Conceitos Fundamentais).
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