terça-feira, 24 de julho de 2012

Resenha: Food e Food Politics


CLAPP, Jennifer. (2012) Food. Cambridge: Polity. ISBN 074564936X

PAARLBERG, Robert. (2010) Food Politics – What everyone needs to know. Nova Iorque: Oxford University Press. ISBN 019538959X

Palavras-chave: alimentos; agricultura; agroalimentar

A agricultura tem sido pivô de uma série de estudos no campo das Relações Internacionais. Diversas análises foram produzidas sobre a economia política das posições negociadoras dos países, a lógica político-institucional que determina o espectro de modificações e concessões, a estruturação e as relações de poder nos regimes internacionais, entre outros. Contudo, um aspecto substantivo diretamente relacionado às questões agrícolas internacionais parece ter escapado aos analistas brasileiros: alimentos. Ao tratar de agricultura, o que comumente se tem em mente são fluxos internacionais de commodities e o componente agrícola no balanço comercial. Com isso, um lado importante do prisma agrícola tem sido negligenciado, algo que a literatura estrangeira denomina, em termos gerais, sistema agro-alimentar internacional, economia alimentar mundial ou regime alimentar internacional, para ficar apenas em alguns termos. Fome, segurança e assistência alimentares são temas que, surpreendentemente, não inspiram livros e artigos na grande área de RI no Brasil, a despeito de um dos principais vetores de inserção internacional do país ser o agronegócio e de a política de combate à fome ser aclamada no exterior.

Os livros de Jennifer Clapp e Robert Paarlberg lidam com os temas mencionados acima e com outros correlatos. São boas obras para quem busca examinar questões agrícolas por um outro ângulo, digamos, agroalimentar. Food Politics, de Paarlberg, e Food, de Clapp, são livros panorâmicos, que tem como maiores virtudes a apresentação de questões importantes. Ao fazê-lo, os autores também expõem suas opiniões e análises. Suas perspectivas são – é importante destacar –bastante diferentes e, justamente por isso, o par oferece uma boa leitura para aqueles que buscam se familiarizar com outras vertentes do debate sobre agricultura em âmbito internacional.

Jennifer Clapp, Ph.D em Relações Internacionais pela London School of Economics é professora da Universidade de Waterloo, no Canadá, e há alguns anos vem estudando questões alimentares. Seu livro Food é estruturado em 6 capítulos que versam sobre a economia alimentar mundial, o mercado global de alimentos industrializados, as corporações transnacionais, a financeirização dos alimentos e as assimétricas regras do comércio agrícola. O livro é uma crítica ao que a autora vê como um sistema de produção e comercialização de alimentos que se consolida em meados do século XX e que continua se expandindo. Para ela, esse sistema pode afetar negativamente desde aspectos culturais até as possibilidades de se atingir a segurança alimentar. A autora analisa os diversos atores e forças que atuam nos chamados “espaços médios” que se situam entre os produtores e os “comedores”. Nesses espaços médios Estados, organizações internacionais, fundações privadas, corporações transnacionais e atores financeiros disputam a criação de regras, padrões mercadológicos e hábitos alimentares na conformação da economia alimentar mundial, desconectando fazendeiros e consumidores finais, algo criticado pela autora. Ponto destacado no livro, a perda do vínculo entre os locais de produção e de consumo dos alimentos, que colocam centenas e às vezes milhares de kilômetros entre as duas pontas da cadeia, poderia trazer problemas relacionados à inocuidade dos alimentos, expor consumidores às vulnerabilidades decorrentes do comércio internacional, e desvirtuar metas maiores das relações agroalimentares, como a provisão de alimentos nutritivos e culturalmente adequados.

Se Clapp critica a crescente integração global das cadeias agroalimentares e a crescente dependência de certos países da importação de alimentos, Paarlberg apresenta visão bastante divergente ao apontar que apenas cerca de 5% do alimento consumido mundialmente é distribuído via comércio internacional. Para o autor, a intensificação da tecnologia e do comércio seriam soluções para a crescente demanda por alimentos em termos quantitativos e de qualidade.

Robert Paarlberg, Ph.D em Governo por Harvard e docente do Wellesley College, nos EUA, é consagrado professor norte-americano que lida com agricultura e questões alimentares há décadas. Por conta de sua vasta experiência, inclusive, o livro possui um tom mais opinativo, no sentido de que muitos argumentos são sustentados pela autoridade de Paarlberg na área, o que não consideramos um ponto negativo já que, como dito, o texto tem função mais panorâmica, de apresentação de questões e hipóteses. O subtítulo de Food Politics – What everyone needs to know – é um bom indicativo da tônica do livro, que é encadeado em torno de perguntas como “Podemos alimentar uma população crescente sem causar danos irreversíveis ao meio ambiente?”, “O que causam as fomes coletivas?” e “Os governos buscam poder coercitivo a partir da assistência alimentar e do comércio de alimentos?” . As perguntas feitas e respondidas pelo próprio autor, com um viés mais liberal, estão alocadas em 14 capítulos que tratam de temas variados como a produção de alimentos, as fomes coletivas, a obesidade, alimentos geneticamente modificados e o sistema alimentar mundial. 

O livro de Paarlberg cobre uma gama muito maior de assuntos correlacionados aos alimentos do que o de Clapp. Contudo, é bem menos analítico e profundo do que o dela, que apresenta muito mais dados, documentos, fontes, reflexões e possui também uma interessante e comentada lista de leituras sugeridas. Em conjunto, ambos são capazes de fornecer uma boa entrada para as questões alimentares internacionais, levantando diversas questões que podem levar a criação de agendas de pesquisa numa área de crescente relevância para o Brasil e para o mundo.

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