CLAPP, Jennifer. (2012) Food. Cambridge: Polity. ISBN 074564936X
PAARLBERG, Robert. (2010) Food Politics – What everyone needs to know. Nova Iorque:
Oxford University Press. ISBN 019538959X
Palavras-chave:
alimentos; agricultura; agroalimentar
A agricultura
tem sido pivô de uma série de estudos no campo das Relações Internacionais. Diversas
análises foram produzidas sobre a economia política das posições negociadoras
dos países, a lógica político-institucional que determina o espectro de
modificações e concessões, a estruturação e as relações de poder nos regimes
internacionais, entre outros. Contudo, um aspecto substantivo diretamente
relacionado às questões agrícolas internacionais parece ter escapado aos
analistas brasileiros: alimentos. Ao tratar de agricultura, o que comumente se
tem em mente são fluxos internacionais de commodities e o componente agrícola no
balanço comercial. Com isso, um lado importante do prisma agrícola tem sido
negligenciado, algo que a literatura estrangeira denomina, em termos gerais,
sistema agro-alimentar internacional, economia alimentar mundial ou regime
alimentar internacional, para ficar apenas em alguns termos. Fome, segurança e
assistência alimentares são temas que, surpreendentemente, não inspiram livros
e artigos na grande área de RI no Brasil, a despeito de um dos principais
vetores de inserção internacional do país ser o agronegócio e de a política de
combate à fome ser aclamada no exterior.
Os livros de
Jennifer Clapp e Robert Paarlberg lidam com os temas mencionados acima e com
outros correlatos. São boas obras para quem busca examinar questões agrícolas
por um outro ângulo, digamos, agroalimentar. Food Politics, de Paarlberg, e Food,
de Clapp, são livros panorâmicos, que tem como maiores virtudes a apresentação
de questões importantes. Ao fazê-lo, os autores também expõem suas opiniões e
análises. Suas perspectivas são – é importante destacar –bastante diferentes e,
justamente por isso, o par oferece uma boa leitura para aqueles que buscam se
familiarizar com outras vertentes do debate sobre agricultura em âmbito
internacional.
Jennifer Clapp,
Ph.D em Relações Internacionais pela London School of Economics é professora da
Universidade de Waterloo, no Canadá, e há alguns anos vem estudando questões
alimentares. Seu livro Food é
estruturado em 6 capítulos que versam sobre a economia alimentar mundial, o
mercado global de alimentos industrializados, as corporações transnacionais, a
financeirização dos alimentos e as assimétricas regras do comércio agrícola. O
livro é uma crítica ao que a autora vê como um sistema de produção e
comercialização de alimentos que se consolida em meados do século XX e que
continua se expandindo. Para ela, esse sistema pode afetar negativamente desde
aspectos culturais até as possibilidades de se atingir a segurança alimentar. A
autora analisa os diversos atores e forças que atuam nos chamados “espaços
médios” que se situam entre os produtores e os “comedores”. Nesses espaços
médios Estados, organizações internacionais, fundações privadas, corporações
transnacionais e atores financeiros disputam a criação de regras, padrões
mercadológicos e hábitos alimentares na conformação da economia alimentar
mundial, desconectando fazendeiros e consumidores finais, algo criticado pela
autora. Ponto destacado no livro, a perda do vínculo entre os locais de
produção e de consumo dos alimentos, que colocam centenas e às vezes milhares
de kilômetros entre as duas pontas da cadeia, poderia trazer problemas
relacionados à inocuidade dos alimentos, expor consumidores às vulnerabilidades
decorrentes do comércio internacional, e desvirtuar metas maiores das relações
agroalimentares, como a provisão de alimentos nutritivos e culturalmente
adequados.
Se Clapp critica
a crescente integração global das cadeias agroalimentares e a crescente
dependência de certos países da importação de alimentos, Paarlberg apresenta
visão bastante divergente ao apontar que apenas cerca de 5% do alimento
consumido mundialmente é distribuído via comércio internacional. Para o autor,
a intensificação da tecnologia e do comércio seriam soluções para a crescente
demanda por alimentos em termos quantitativos e de qualidade.
Robert Paarlberg,
Ph.D em Governo por Harvard e docente do Wellesley College, nos EUA, é
consagrado professor norte-americano que lida com agricultura e questões
alimentares há décadas. Por conta de sua vasta experiência, inclusive, o livro possui
um tom mais opinativo, no sentido de que muitos argumentos são sustentados pela
autoridade de Paarlberg na área, o que não consideramos um ponto negativo já
que, como dito, o texto tem função mais panorâmica, de apresentação de questões
e hipóteses. O subtítulo de Food Politics
– What everyone needs to know – é um bom indicativo da tônica do livro, que
é encadeado em torno de perguntas como “Podemos alimentar uma população
crescente sem causar danos irreversíveis ao meio ambiente?”, “O que causam as
fomes coletivas?” e “Os governos buscam poder coercitivo a partir da
assistência alimentar e do comércio de alimentos?” . As perguntas feitas e
respondidas pelo próprio autor, com um viés mais liberal, estão alocadas em 14
capítulos que tratam de temas variados como a produção de alimentos, as fomes
coletivas, a obesidade, alimentos geneticamente modificados e o sistema
alimentar mundial.
O livro de
Paarlberg cobre uma gama muito maior de assuntos correlacionados aos alimentos
do que o de Clapp. Contudo, é bem menos analítico e profundo do que o dela, que
apresenta muito mais dados, documentos, fontes, reflexões e possui também uma interessante
e comentada lista de leituras sugeridas. Em conjunto, ambos são capazes de
fornecer uma boa entrada para as questões alimentares internacionais,
levantando diversas questões que podem levar a criação de agendas de pesquisa
numa área de crescente relevância para o Brasil e para o mundo.
Um comentário :
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