O Programa Fome Zero foi lançado em 2003, durante o governo Lula, com o
objetivo de garantir o acesso à alimentação adequada. O programa está dentro
dos objetivos visados pelo ex-presidente, que incluíam a erradicação da fome no
Brasil como prioridade máxima, dentro da perspectiva de que a segurança
alimentar e nutricional é um direito de todos os cidadãos.
A FAO e organismos internacionais como o Banco Mundial, o Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), dentre outros, deram suporte ao Fome
Zero e seus 31 programas complementares, que foram implementados pelo Governo
Federal ou tiveram o apoio dele. A fim de coordenar o trabalho desses
organismos no que tange ao Programa Fome Zero (PFZ), criou-se um Grupo de Trabalho Conjunto
FAO/BIRD/BID/Equipe de Transição (FAO, s/d, FAO no Brasil - Memória de Cooperação Técnica; Brasil, s/d, Relatório do Grupo de Trabalho Conjunto FAO/BID/ BIRD/Equipe de Transição). [1]; [2]
Essas organizações perceberam, no entanto, que não poderiam
comprometer-se completamente com ações específicas relativas ao PFZ, pois não
cabia a estas a avaliação e a aplicação do programa. A ação dos organismos
ficava à mercê da solicitação formal do governo eleito, o que gerava um receio
quanto à manutenção da condução das políticas de combate à fome (Brasil, s/d, Relatório do Grupo de Trabalho Conjunto FAO/BID/ BIRD/Equipe de Transição).
A FAO, em especial, fez grande esforço para dar suporte à implementação
do PFZ, guiando-se a partir dos objetivos e das metas da Cúpula Mundial de
Alimentação. Foram executados três projetos em apoio ao PFZ, a saber:
• TCP/BRA/2904 – “Capacidade de construção para melhorar a segurança
alimentar da população rural pobre no Nordeste”;
• TCP/BRA/2905 – “Ajustes nos projetos financiados internacionalmente
para apoiar os Programas Fome Zero” ;
• TCP/BRA/2906 – “Apoio a Execução Inicial do Programa Fome Zero”.
O trabalho da FAO junto ao PFZ resultou em parcerias posteriores com
instâncias como o MEC e ligações com outros programas relacionados à questão
alimentar, pois sabe-se que a implementação de um programa com o Fome Zero não
é simples e requer ações e desenvolvimento em vários outros aspectos ligados ao
meio ambiente e à produção alimentar. Dentre estes programas, estão o Programa
Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária, Programa Nacional de
Florestas, Programa Nacional de Gestão
Ambiental Rural, Programa Nacional de
Pescas e Aquicultura e ainda, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (FAO, s/d, FAO no Brasil - Memória de Cooperação Técnica).
Ainda, o atual diretor da FAO, José Graziano da Silva, que era Ministro
da Segurança Alimentar e Combate à Fome no Brasil e grande responsável pela
formulação do PFZ, declarou que quer levar o programa para o resto do mundo. A
declaração foi feita na abertura da Conferência Bianual Terra Madre, em Turim,
Itália, em 2012. [3]
Ainda, em abril deste ano, o presidente do México, Enrique Peña Nieto, lançou a campanha ‘Sin Hambre’, inspirada no Fome Zero. Neste país, 11 mil pessoas
morreram em decorrência da fome em 2011. O plano servirá a 7,4 milhões de
mexicanos em 400 cidades consideradas marginalizadas, com altos índices de
pobreza. Para a ministra mexicana do Desenvolvimento Social, Rosario Robles,
que está à frente da campanha no México, o Fome Zero logrou sucesso no Brasil.
Já de acordo com o economista Miguel Angel Corro, o PFZ fracassou em reduzir a
pobreza no Brasil e por isso foi logo substituído pelo Bolsa Família. A
campanha ‘Sin Hambre’ também foi criticada: alguns apontam que corre o risco de
ser transformada em um negócio da fome, já que grandes grupos privados estão
engajados e podem transformar hábitos alimentares dos pobres com alimentos
muito salgados ou açucarados, que agravariam o problema da obesidade, já
bastante preocupante no país. [4]
Priscila Berndt, estudiosa da cooperação internacional brasileira com países
africanos, acredita que os motivos de solidariedade alegados pelo governo Lula
para promover assistência externa e cooperação não são verdadeiros porque o
Fome Zero, que tem sido aclamado e muito visado para implantação em nível
mundial, tem recebido pouca atenção como forma de cooperação técnica. Sabe-se
que o Brasil, atualmente, vive um panorama de assistência externa em que
representa um doador, principalmente na cooperação Sul-Sul, e tenta manter esse
status. Ainda assim, dentro da cooperação com a África, por exemplo, a área de
Desenvolvimento Social, na qual está contido o Fome Zero, tem peso de apenas 2%
do total de áreas que categorizam os projetos de cooperação (Berndt, 2009).
É difícil prever o sucesso da reprodução de um programa como o Fome Zero em outros países, pois este depende de vários outros programas e do apoio de entidades que, em conjunto, permitam-no ser coordenado e eficaz. No Brasil, o PFZ conseguiu tirar 50% das pessoas que viviam em extrema pobreza e deixá-las num patamar acima da linha de pobreza (Rebizzi, 2013). Análises mais profundas devem constatar se esse número é satisfatório, ou mesmo se os demais programas sociais estão conseguindo manter ou aumentar tal sucesso. No que tange à cooperação e ao atual papel do Brasil como doador e provedor de projetos, deixa-se aqui uma reflexão sobre a real utilidade do Fome Zero como um programa de combate à fome elaborado pelo Brasil e passível de ser um modelo exportado para o mundo, aumentando, assim, o prestígio brasileiro como doador e sua solidariedade em termos de cooperação internacional.
Referências Bibliográficas:
BERNDT, P. A Cooperação Técnica Internacional Como Instrumento da Política Externa Brasileira: O Brasil Como Doador Junto aos Países Africanos. Monografia apresentada junto ao curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Porto Alegre, 2009.
REBIZZI, J. From Recipient to Donor. The Brazilian Trajectory as a Foreign Aid Donor. 2013. 70 f. Dissertação de mestrado. Uppsala Universitet. Mestrado em Ação Humanitária Internacional.
Referências Bibliográficas:
BERNDT, P. A Cooperação Técnica Internacional Como Instrumento da Política Externa Brasileira: O Brasil Como Doador Junto aos Países Africanos. Monografia apresentada junto ao curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Porto Alegre, 2009.
REBIZZI, J. From Recipient to Donor. The Brazilian Trajectory as a Foreign Aid Donor. 2013. 70 f. Dissertação de mestrado. Uppsala Universitet. Mestrado em Ação Humanitária Internacional.
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