
No Brasil, a
questão da insegurança alimentar sempre foi um problema social antigo e
presente, e que atinge a população mais vulnerável do país. O debate sobre a segurança alimentar e nutricional ganhou um escopo maior na agenda política brasileira a partir das publicações
do célebre geógrafo e médico Josué de Castro entre os anos 1930 e 1940, onde o autor
passa a expor as dimensões sociais da fome no país (MALUF, 2007; BRASIL, 2011).
Embora
tomado politicamente de maneira pontual durante as décadas seguintes no Brasil,
a discussão sobre a fome somente é consolidada a partir da Constituição Federal
de 1988. Com o início da chamada Nova República e a redemocratização do país, o
tema da segurança alimentar ganhou enfoque permanente no debate político. O
tema foi impulsionado, principalmente, pelas bandeiras de movimentos sociais
(como movimentos organizados de agricultores, por exemplo). Esse maior debate
sobre o tema contribuiu para a tomada de medidas mais práticas, ocasionando,
por exemplo, na organização de conferências sobre saúde envolvendo o tema, bem
como propostas de formação de uma Política Nacional de Segurança Alimentar e de
um Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) (BRASIL, 2011; MALUF,
2007). Como explica Maluf (2007, p. 80), “a segurança alimentar apareceu pela
primeira vez como referência de uma proposta de política contra a fome, com
certo atraso em relação a sua utilização no plano internacional”.
Outra
questão paralela importante do período de redemocratização do Brasil diz
respeito à descentralização baseada no novo pacto federativo. Como coloca
Almeida (2009, p. 29), “a descentralização foi um tema central na agenda da
democratização, nos anos 1980, como reação à concentração de decisões, recursos
financeiros e capacidade de gestão no plano federal, durante os 20 anos de
autoritarismo burocrático”. Essa reestruturação do sistema de competências e
atribuições das esferas governamentais impactou fortemente a formulação de
políticas e programas sociais no país. As políticas de segurança alimentar e
nutricional não ficaram alheias a esse processo. Mas será que essa participação chega a
abranger o nível mais interessado das políticas públicas em questão, isto é,
seus beneficiários?
Esse texto
trata da problemática da participação social numa política pública específica
criada em 2003: o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Atento
majoritariamente para a qualidade da participação dos agricultores
beneficiários dessa política pública específica. Tendo em vista a
descentralização e a maior participação da sociedade na formulação e
implementação das políticas públicas do país, há uma presente participação dos
agricultores beneficiários no PAA? Mais especificamente, trabalho com um estudo
de caso paraibano, carente de estudos avaliativos sobre os impactos do PAA no
estado.
O desafio da participação social
no PAA
A luta por
um programa voltado à agricultura familiar tem suas raízes em um escopo de
reivindicações sociais marcantes principalmente na década de 1990, com vista a
garantir o reconhecimento da agricultura familiar e de suas especificidades
(GRISA, 2011). Com o governo Lula, a demanda por uma política pública
especifica para esta questão ganha grande espaço. Grisa (2011, p. 13) aponta
que “o processo de discussão e criação do PAA abarcou uma rede de atores de
diversas instituições estatais e da sociedade civil”. Desde o Ministério de
Segurança Alimentar e Combate à Fome (MESA) e o Ministério do Desenvolvimento
Agrário (MDA), até o Consea e atores da sociedade civil vinculados a movimentos
sociais da agricultura familiar, a discussão sobre a criação de uma política
pública específica sobre a questão possuiu um acentuado caráter intersetorial.
O PAA tem
como principal estratégia incentivar a produção de alimentos por agricultores
familiares, a fim de garantir a Segurança Alimentar e Nutricional destes
produtores e da comunidade local e, aliado a isso, gerar mais renda para os
mesmos. Através das modalidades de compra, o governo adquire os produtos dos
agricultores familiares e instituições, sem lançar mão de licitações e por
preços que não sejam nem superiores nem inferiores aos praticados nos mercados
locais. Posteriormente, os alimentos comprados são doados para entidades de
cunho sócio assistencial que ofereçam refeições para indivíduos em
vulnerabilidade social.
Por ser um
programa oriundo das demandas de organizações da sociedade civil, o PAA agrega
importante participação desses setores. Grisa et al (2009, p. 14) argumentam
que modalidades como a Compra com Doação Simultânea e a Compra Direta Local da
Agricultura Familiar “envolvem um vasto conjunto de atores oriundos da esfera
pública e da sociedade civil, localizados em diferentes escalas”. Hespanhol
(2009, p. 476) coloca que “o próprio governo federal tem induzido à organização
coletiva no espaço rural ao condicionar a participação dos produtores rurais em
programas, como algumas modalidades do PAA, desde que organizados em
associações ou cooperativas”.
Sobre a
construção do PAA como política pública, Muller et al (2007) afirmam que no
âmbito dos debates políticos, os agricultores não exerceram papel de destaque
no que diz respeito à construção do programa em si. Ela defende, contudo, que
isso não significa dizer que o programa não estivesse de acordos com os
interesses desses atores. A autora em questão coloca que “a permeabilidade do
Estado brasileiro permitiu que os movimentos sociais pudessem colocar em pauta
suas reivindicações” (Idem, p. 18).
Outro fator
apontado por Grisa et al (2009) é que o PAA não se mostra, quanto a sua
organização participativa, uniforme para todo território nacional. Isto é, o
programa assume formas institucionais diferentes de acordo com cada contexto.
Essa característica impacta o modo como os beneficiários participam do
programa. “O conjunto de órgãos públicos
federais e locais, movimentos sociais e ONGs podem estar envolvidos em
distintos graus na implementação do PAA nos diferentes contextos do país”
(GRISA et al, 2009, p. 15).
Fazendo uma
análise da participação social do PAA no Rio Grande do Sul, Muller et al (2007,
p. 19) consideram que “o maior envolvimento de associações, cooperativas, ONGs,
corrobora para resultados positivos e em consonâncias com os anseios dos
atores”. Dentre as benesses vinculadas à participação dos grupos beneficiários
pelo programa, Muller et al (2007) destacam a intensidade de trocas de
informação e, consequentemente, uma adaptabilidade e resposta mais efetiva da
política pública em questão com relação às demandas dos agricultores
beneficiários. Mais ainda, a participação efetiva desses atores corrobora para
a redução de níveis de poder, isto é, a verticalidade da implementação do
programa que pode muitas vezes estar alheio às necessidades dos participantes
do programa.
Considerando,
portanto – com base na literatura exposta – a importância da participação ativa
dos agricultores beneficiários no PAA, analiso abaixo como os
agricultores paraibanos participantes do programa atuam no processo de
implementação da política pública em questão.
A problemática da participação
dos agricultores beneficiários no PAA Estadual da Paraíba
O PAA
Estadual da Paraíba foi lançado pelo Ministério de Desenvolvimento Social e
Combate à Fome (MDS) em junho de 2010, e a primeira das modalidades – Compra
Direta Local da Agricultura Familiar para Doação Simultânea (CDL) – vem sendo
realizada desde 2011.
O estudo
elaborado por Dias, Santana e Rensi (2014) detalha resultados do programa referentes aos
impactos na renda, na produção de alimentos e na segurança alimentar dos
agricultores beneficiários. Este texto se deterá na análise que o relatório
traz a respeito da participação dos agricultores inseridos no programa.
Dias, Santana e Rensi (2014), colocam que, embora o PAA no Estado da Paraíba demonstre resultados
benéficos relevantes para a esfera dos agricultores familiares – como o
estímulo à policultura, aumento da renda, o pagamento de preços justos, a
ampliação da área cultivada, entre outros – o programa apresenta limites que
resultam de uma resposta ineficiente às necessidades dos beneficiários. Meu
argumento é de que esses limites se dão, muito em conta, pela falta de uma
participação mais ativa destes no funcionamento do programa. Esta afirmativa,
portanto, corrobora com o que foi exposto no tópico anterior, de que, em suma,
a participação ativa destes atores em questão colabora para um melhor
funcionamento da política pública.
Esta
participação encontra um entrave desde o início, quando da falta de divulgação
do programa. Apenas 2% dos agricultores participantes declararam ter tido
conhecimento do PAA através do principal órgão implementador, qual seja, o
Governo do Estado (DIAS, SANTANA E RENSI, 2014). Essa situação, portanto, é reflexo de um
desconhecimento dos órgãos implementadores com relação às necessidades e às
demandas dos atores da agricultura familiar. Isso demonstra um distanciamento
das políticas públicas de incentivo à agricultura familiar com relação à
própria agricultura familiar no Estado da Paraíba. Esse entrave inicial pode
contribuir para um distanciamento contínuo durante a implementação do PAA,
contribuindo para decisões verticais alheias às demandas dos agricultores
participantes.
Contudo, os
dados mais flagrantes são com relação à falta de conhecimento da estrutura
organizacional do PAA no Estado. Os dados demonstram que, com isso, não há uma
participação efetiva das organizações locais de agricultores nas estruturas do
programa. 61% dos entrevistados declararam conhecer pouco como o PAA funciona. Isso
demonstra a forte verticalização e falta de participação dos beneficiários nas
estruturas decisórias do programa em questão. O papel das organizações de
agricultores fica muitas vezes restrito ao repasse de informações e decisões
tomadas. Essa falta de diálogo e de uma maior horizontalidade no que se refere
à participação dos setores envolvidos no PAA na Paraíba ocasionam limites,
dentre os quais se destaca a falta de assistência técnica (como infraestrutura
de plantio e transporte), o que prejudica a efetividade do programa, de modo
geral (DIAS, SANTANA E RENSI, 2014).
Considerações
Finais
Apesar
do processo de redemocratização pelo qual passou o Brasil a partir de meados
dos anos 1980, que ocasionou na descentralização de formulação e implementação
de políticas públicas no país, a participação das populações diretamente
afetadas por esses programas ainda apresenta limites consideráveis. Como foi
exposto anteriormente, existem estudos demonstrando o quanto a participação
social colabora na efetividade da implementação do PAA. Uma maior
horizontalidade, bem como o atendimento eficaz às necessidades diretas dos
agricultores beneficiários são resultados benéficos oriundos dessa
participação. No Estado da Paraíba, o PAA – pelo que se observou até o momento –
apresenta limites consideráveis no que diz respeito à implementação de um
diálogo mais forte, bem como a participação mais ativa dos agricultores
participantes do programa.
Referências
ALMEIDA, L.M.M.; FERRANTE, V.L.S. (2009). Programas
de segurança alimentar e agricultores familiares: a formação de rede de forte
coesão social a partir do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) no município
de Araraquara SP. In: Anais XLVII
Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural.
Porto Alegre: SOBER.
BRASIL. (2011). Estruturando o Sistema
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN. Cadernos SISAN, nº 01/2011.
DIAS, Atos; SANTANA, Jenifer Queila De; RENSI, Julia Silva (2014). A modalidade de
Compra Direta Local com Doação Simultânea do PAA: uma avaliação na perspectiva
dos agricultores beneficiários. Secretaria
de Estado de Desenvolvimento Humano do Estado da Paraíba.
GRISA, Catia. (2011). As redes e a
instituições do Programa de Aquisição de Alimentos: uma análise a partir do
enraizamento estrutural e político. In: Anais XLVII Congresso da Sociedade
Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural. Porto Alegre:
SOBER.
GRISA, Catia et al. (2009). O Programa de
Aquisição de Alimentos (PAA) em perspectiva: apontamentos e questões para o
debate. Observatório de Políticas
Públicas para a Agricultura.
HESPANHOL, R.M. (2009). O programa de
aquisição de alimentos (PAA) na região de Dracena (SP). In: Anais XLVII Congresso da Sociedade
Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural. Porto Alegre: SOBER.
MALUF, Renato Sérgio Jamil
(2007). Segurança Alimentar e Nutricional. Rio de Janeiro: Editora Vozes.
MULLER,
A.L. et al. (2007). A inovação institucional e a atuação dos atores locais na
implementação do Programa de Aquisição de Alimentos no Rio Grande do Sul. Sociedade e desenvolvimento rural. v.1,
n.1.
