Já dizia o grande Karl Marx: “A fome é a fome, mas a fome que é saciada com carne cozida e consumida com faca e garfo é diferente da fome do que devora carne crua e a come com a mão, com unhas e dentes.”
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| Foto de produção de grãos em Minas Gerais - Brasil |
Qual a motivação para a
relação expressa acima, no título? A (in)segurança alimentar.
Considerando que a
segurança alimentar representa um contexto em que há a segurança do suprimento
(acesso físico), o acesso econômico (preço e renda), o aspecto nutricional para
a saúde e vida e a regularidade desses fatores anteriores; a insegurança
alimentar é o seu caso inverso, a falta de disponibilidade física do alimento.[1] Paralelo
ao conceito de segurança alimentar está o de soberania alimentar. Que deve ser
observado como uma política nacional, um direito que os Estado têm para
direcionar suas ações para alcançar o objetivo da segurança alimentar (MALUF,
2007). Tal conceito implica em um conjunto de diretrizes governamentais
para moldar a produção, o processamento, o beneficiamento e a distribuição
dessa produção. E elas passam a estar relacionado com a esfera rural da
sociedade, responsável por suprir as demandas locais, urbanas e se possível,
gerar um superávit para a exportação.
Segundo os especialistas,
a produção de alimentos, idealmente, deveria ser produzida em âmbito nacional.
Mas, a atual agricultura tem como desafio: alimentar a população em
crescimento, sustentar o consumo de alimentos no processo de urbanização,
suprir o desenvolvimento de biocombustíveis, etc. O aumento da demanda e o
problema de atendê-la, que já se faz evidente hoje, será muito maior em 2050: [2]
“As projeções
mostram que alimentar a população de 9,1 bi de pessoas em 2050 requereria um
aumento da produção de alimentos superior a 70% entre 2005 e 2050” [2]
E assim as necessidades
alimentares das populações ao redor do mundo se apresentam em níveis diferentes
de satisfação: boa para América do Norte e Europa, aceitável na China; medíocre
no resto da Ásia e AL; e desastrosa na África. [3]
Essa situação de produção-satisfação das necessidades que movimentam a engrenagem do mercado global de alimentos. Mas também outras movimentações, i.e., as de investimentos em terras férteis para transferência dessa produção, expansão das gigantescas corporações do agronegócio e movimentos de investimento especulativo. Trata-se do que a literatura atual chama de “Land Rush”, que basicamente, é a tendência observada diante do grande número de investimentos estrangeiros em terras. E, como esse fenômeno ultrapassa fronteiras e apresenta como atores entidades transnacionais, é mais um problema a ser analisado pelas RI.
Todavia, essa corrida
provocada pela busca da segurança alimentar tem a ver com a instabilidade do
mercado de commodities, pois a volatilidade da safra mantém instável a oferta
internacional. Que é suprida através de dois tipos de produção: produção de
subsistência e a produção capitalista. Aquela corresponde a basicamente um
terço da humanidade, isto é, aproximadamente 3 bilhões de pessoas que sobrevivem
através da agricultura de subsistência. A produção agrícola capitalista, por
sua vez, pode ser familiar ou a corporativa. No caso da produção familiar, não
existe divisão do trabalho de forma industrial, mas mesmo assim apresentam alta
mecanização e alta produtividade.
No caso corporativo,
caracteriza-se por grandes extensões de terra, uso de alta tecnologia,
fertilizantes e pesticidas, sementes geneticamente modificadas (OGMs), e o
domínio das próximas etapas da produção: o beneficiamento e o transporte. Além
disso, com a expansão do capitalismo, a agricultura incorpora o perfil da
produção industrial, com a lógica de acumulo de capital, alta utilização de
mecanização e o predomínio de oligopólios. A diferença de produtividade
observada pode chegar a 2000/1 entre os casos de produção de subsistência e
corporativa. [3]
A transformação de um tipo
de produção agrícola para o outro (subsistência para o corporativo), ao
acontecer em cada país, provoca o fenômeno da modernização da agricultura, a
urbanização e migração, refletida no chamado desemprego estrutural: o êxodo
rural. Tal fato geraria a estabilização ou a redução dos salários nas áreas
urbanas pela grande oferta de mão-de-obra. Provocando fenômenos que levam ao
empobrecimento dessas famílias migrantes, favelizações, etc.
Assim, essa inserção da agricultura no capitalismo global provocou a exclusão, marginalização e alienação de milhões de camponeses e trabalhadores dependentes dessas atividades ao redor do mundo. A mesma marginalização os faz vítima potencial da insegurança alimentar e fome [3]. Disseminando pobres e famintos. Observa-se com isso uma espécie de paradoxo, já que a contribuição da agricultura consiste em não apenas produzir alimentos, mas conduzir os países ao desenvolvimento, a geração de renda e o apoio a produtores rurais de subsistência. [2]
Por isso e muito mais a
terra é vista pelo campesino como o meio de vida, o habitat, o ambiente de
trabalho, o locus em que nasceu, se reproduzirá e sobreviverá, seu lar, local
de vida, de sua raiz e tradição. [4] Contudo,
compreende-se o porquê dos movimentos dos sem-terra ao redor do mundo. Eles
lutam contra os grandes produtores e suas concentrações de renda e terras,
perpetuando a pobreza e a fome.
Diante disso observa-se a
importância de políticas sociais aliadas a esse sistema capitalista, isto é,
políticas de reforma nos direitos de posse de terras, por exemplo, ou a
transferência de terras improdutivas para as famílias de camponeses, entre
outras. Os ensinamentos revolucionários socialistas ensinados desde o século
XIX apresentam tais medidas como pressupostos para que haja uma sociedade mais
igualitária e sem dominação. O capitalismo, no entanto, como sistema de
exclusões, amplia as discrepâncias de regiões e contextos, num ciclo derivado
da acumulação de capital, que novamente será realimentado pela transferência de
recursos dos países mais pobres para os mais ricos.
Contudo, a busca pela
redução da insegurança alimentar, se acontecer pela via Norte-Sul capitalista
excludente, marginalizará camponeses e produzirá nos países subdesenvolvidos e
em desenvolvimento que as apresentam, mais insegurança alimentar e
vulnerabilidades. Contribuindo para a perpetuação da fome, e concretizando a
tendência do recrudescimento da subnutrição e insegurança alimentar no mundo,
devido ao já conhecido problema do grande aumento populacional e a falta de
oferta de alimentos suficiente (não só grãos, mas outros tipos, como
carnes e derivados do leite). Cresceremos mais ou menos 2,3 bilhões de pessoas
até 2050, e o crescimento da produção agrícola de alimentos,
sozinho, não será suficiente para alimentar a todos; os recursos
naturais (água e terras) serão mais escassos; e por isso, infelizmente, o
problema da fome no mundo não será resolvido até lá . [2]
Referências:
MALUF, Renato S.J.
Segurança Alimentar e Nutricional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

Um comentário :
Um socialista será sempre um pessimista.
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