![]() |
| Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento e Pesca de Itabaiana-PB |
![]() |
| Sala na qual se realiza os procedimentos de compra. |
Ao todo nós
entrevistamos 11 beneficiários do PAA, sendo 18,5% deles Assentados de Reforma
Agrária, e 81,5% Agricultores Familiares. Um diferencial evidenciado nas entrevistas diz
respeito à quantidade de mulheres cadastradas no PAA. 54,5% dos entrevistados
eram agricultoras familiares, que cadastraram-se com CPF e RG próprio sem interferência
dos parceiros. Em Curral de Cima, diferentemente, todos os entrevistados eram
do sexo masculino. A participação das mulheres em Programas como esse, pode ser
considerado um avanço para o recuo das desigualdades de gênero no meio
agrícola. A FAO (Food and Agriculture Organization), Agência da ONU que lida
com questões relacionadas à produção e distribuição de alimentos,
frequentemente publica estudos e defendem políticas que destacam a importância
das questões de gênero para a agricultura:
![]() |
| FAO-Brasil |
“Segundo a FAO, as mulheres, em relação aos
homens, sofrem de desigualdade no acesso à terra, à educação, ao treinamento
para a agricultura, às sementes, à agua, a ferramentas, tecnologias, direitos
legais, mercados e na possibilidade de tomada de decisão. Mais de 1.1 bilhões
de mulheres agricultoras não conseguem desenvolver seu potencial pleno dentro
do trabalho agrícola – se o acesso fosse igualitário, elas poderiam produzir de
20 a 30% de comida extra, o bastante para tirar 150 milhões de pessoas da fome”.
[1]
Com exceção de um, todos agricultores entrevistados são integrantes da Associação de
Agricultores da cidade, alguns são sindicalizados, e outros integram o
Movimento Sem Terra. Vale ressaltar que os Assentados de Reforma Agrária,
possuem também o apoio da Associação dos Assentados, que disponibiliza para
eles ferramentas para o plantio e cultivo da terra, assim como transporte para
levarem os alimentos até a Secretaria.
Com relação ao histórico profissional, a grande maioria
trabalha no meio rural desde muito cedo, e 27,2% dos entrevistados em algum
momento da vida já trabalharam fora do meio rural. Muitos relatam que desde
criança já ajudavam os pais nas atividades de plantio e cultivo, o que torna a
prática uma tradição familiar.
No
que tange ao recebimento de benefícios do governo, 36% dos entrevistados
afirmaram receber dentre outros benefícios - Bolsa Família, Aposentadoria, Bolsa
Escola, Bolsa Cidadã, Vale Gás – a Garantia-Safra (GS). A GS é um auxílio vinculado ao Programa Nacional de Fortalecimento
Familiar (Pronaf), o qual incialmente era voltado para os agricultores
residentes nas áreas de atuação da SUDENE, mas que atualmente destina-se para
todos os agricultores que comprovadamente moram em regiões nas quais pode haver
perda da safra por motivos de estiagem ou excesso hídrico.
Os
estados e municípios cadastram-se anualmente no GS. De modo que, se os
agricultores destes estados e municípios cadastrados, perderem eventualmente no mínimo 50% da produção de produtos
específicos - estabelecidos previamente pelo Comitê Gestor- por motivos de seca ou inundação,
receberão o Benefício GS diretamente do governo federal, dividido em cinco
parcelas mensais. O Comitê Gestor do Benefício GS define anualmente o valor do
Benefício, e a quantidade de agricultores que
poderão ser assegurados [2].
No que diz respeito
ao impacto orçamentário, a maioria dos agricultores destacaram o aumento de sua
renda média mensal após o cadastro no PAA. O acréscimo da renda se deu em mais de
50%, na maior parte dos casos. 45,4% dos entrevistados não mantém comercialização
com outras entidades, o que os tornam dependentes financeiros do Programa.
Os que afirmam vender alimentos além do PAA, vendem comumente para os chamados
atravessadores, que são os comerciantes livres que compram produtos a um preço
muito baixo dos agricultores familiares, para repassarem a um preço maior para
outros compradores.
![]() |
| Transporte que leva os alimentos dos agricultores até a Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento e Pesca de Itabaiana-PB |
Essa questão do preço
se porta como um elemento estrutural importante do PAA, pois segundo o
regulamento do Programa, durante os meses de compra, os agricultores podem
escolher quando irão vender ou não o seu produto para o PAA. Deste modo, se
outras entidades e até mesmo os atravessadores estiverem oferecendo um preço
mais lucrativo, os agricultores certamente decidirão vender para eles, em
detrimento de venderem para o PAA. Isso, por um lado, consolida a importância
dada pelo PAA à autonomia dos agricultores, os quais podem decidir não só
quando vender, mas o que vão vender (no cadastro inicial os agricultores
definem os alimentos que iram repassar para o PAA), o que se porta como algo
positivo.
No entanto, por outro lado, essa liberdade traz
impactos negativos para as entidades receptoras como as Escolas, pois os
alimentos ofertados pelos agricultores não são muitas vezes vantajosos nutritivamente para as
merendas realizadas nas instituições. Na escola que entrevistamos em Itabaiana,
a diretora relatou o recebimento em abundância de pimentão e macaxeira, que não
são tão aproveitáveis para as refeições, como as frutas esporadicamente
recebidas o são. Entretanto, os funcionários que operacionalizam o PAA na cidade
se queixam do fato de que não podem fazer muita coisa quanto a esse problema,
pois os agricultores que decidem o que vão plantar, de modo que eles não podem
determinar a maior plantação de frutas em vez de verduras e legumes, e também
não podem determinar o repasse de determinados alimentos ao PAA, se estes
agricultores resolverem vender para outros compradores.
Por fim, no tocante a
avaliação do PAA pelos próprios agricultores, uma das maiores queixas deles foi
no tocante à restrição de quantidade comprada pelo PAA, 54,5% acredita que
poderia aumentar a cota estabelecida para que eles pudessem vender mais. 54,5%
deles, também desejam o aumento dos preços dos produtos e a regularização nas
datas de pagamento. Apesar dos problemas
apontados, 90% considera o PAA como um Programa de boa atuação, e 90% afirma
que o nível da sua produção e também da comercialização dos produtos
diminuiriam com o possível fim do PAA.




Nenhum comentário :
Postar um comentário