A ideia de uma reforma agrária atrasada permanece atual à realidade brasileira. Em paralelo à ideia, a necessidade de uma revolução agrária que encerre uma estrutura arcaica do campo, que é marcada pela concentração de terras e a expulsão dos trabalhadores rurais – entregues à fome, à pobreza e ao descaso – continua forte nos dias atuais.
Embora atrasada, a reforma
agrária é historicamente uma pauta importante nos debates e discursos políticos
do país. Um dos momentos em que a discussão ganhou um acentuado protagonismo foi
durante a gestão Goulart. Fatores internos e externos contribuíram para isso.
No plano nacional, o fortalecimento dos movimentos rurais e a reiteração do
conservadorismo dos grandes proprietários de terras chamam a atenção dos
principais partidos e grupos políticos de esquerda e direita. No plano
internacional, o embate entre o modelo de reforma agrária da revolução cubana e
do programa norte-americano Aliança para o Progresso influenciam os grupos
políticos nacionais. Frente a este contexto, tem-se o desafio posto ao
Presidente Goulart em fazer alavancar um projeto de reforma agrária que fosse
capaz de unir a maioria parlamentar.
A História, contudo, atesta
o fracasso de tal projeto. Fracasso este que representaria, mais do que uma
derrota pontual, um entrave à discussão política mais aprofundada a respeito da
luta pela reforma agrária mesmo nos dias atuais. 50 anos após o golpe e cá
estamos discutindo premissas: prova de que ainda não
conseguimos avançar como deveríamos ter feito.
O fortalecimento da preocupação com relação à reforma agrária no
Brasil
Durante a gestão Goulart, a
maioria dos brasileiros apoiavam uma reforma agrária. Nas principais capitais
do país, segundo uma pesquisa IBOPE realizada em junho de 1963, grande parcela
da população era favorável à reforma agrária. Na Guanabara, em São Paulo, Porto
Alegre e Recife, os aquiescentes representavam mais de 70%, enquanto que não
chegavam a 20% os que eram contrários (levando-se em consideração que uma
parcela da população definia-se como sem opinião) [1]. No entanto, no que diz
respeito aos principais grupos representativos da população (governos,
partidos, sindicatos, igreja, militares e sociedade civil), a reforma agrária
se mostrava, à época, como uma pauta de significativa importância [2]. A
diferença se dava, porém, em como esse processo deveria ser planejado e a quem
esse projeto beneficiaria.
A gestão Goulart é bastante
significativa no que diz respeito ao acirramento dos debates em torno da
reforma agrária. A discussão estava presente na agenda presidencial e o discurso
de posse de Jango colocou que, dentre as reformas de base, a mais urgente seria
a reforma agrária [3]. Essa preocupação se acentuaria de forma significativa no
decorrer do seu mandato e alguns fatores contribuíram para isso.
Em primeiro lugar, no
contexto latino-americano, cabe salientar o surgimento de novas classes que
passaram a questionar a dominação oligárquica centenária sobre a terra. Esses
grupos sociais, intermediários entre os grandes proprietários tradicionais e os
camponeses sem terra, começaram a participar do processo político e a debater a
respeito da estrutura retrógrada da dominação latifundiária, que impedia o
desenvolvimento econômico. Essa condição por si, no entanto, não foi suficiente
para alavancar o processo da descentralização da terra. Isso porque, embora o
poder da nação tenha passado para a área urbana com a revolução de 1930, as oligarquias
mantiveram seu domínio sobre a terra de forma isolada [4].
O debate sobre a questão da
terra e o desenvolvimento econômico, sobretudo, permanecia em pauta e iria se
fortalecer de forma gradual, fazendo surgir diversos argumentos em favor da
reforma agrária. No geral, se entendia que, como resultado do tradicional
sistema agrário, uma parcela considerável da população permanecia fora do
mercado. A maioria dos camponeses produziam apenas para sua própria
subsistência e, por não gerarem renda através da comercialização dos produtos,
não podiam contribuir para a dinamização da economia comprando bens de outros
setores. Por essa razão, a continuação desse sistema não beneficiava os setores
industrial e comercial. Além disso, os grandes proprietários, movidos por um
desincentivo e por um espírito aristocrático, não estariam interessados em
investir. Esses problemas se acentuaram ainda mais, tendo em vista que grande
parcela da terra cultivável não estava sendo utilizada. O que se percebia é que
o setor agrícola não acompanhava o desenvolvimento de outros setores da
economia. Desta última implicância tem-se que nem as indústrias conseguiam os
insumos necessários, nem as cidades os alimentos essenciais para a população. O
desenvolvimento econômico estaria, então, estagnado [4].
Em segundo lugar, é
importante ressaltar a crescente indignação camponesa. Enquanto que, por muito
tempo, os camponeses estiveram aquém do processo político, a partir de então
eles começaram a se organizar. Esse fenômeno despertou o interesse de Goulart
em controlar tal processo (assim como despertara, para Vargas, o processo de
organização dos trabalhadores urbanos em sua época). Era preciso, então, seguir
os passos do mestre: ter sob controle e institucionalizar o movimento camponês
[3].
Em 1963, Goulart consegue a
aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural, que garantiram os mesmos direitos
dos assalariados urbanos aos trabalhadores rurais. Mais especificamente com
relação à reforma agrária, o governo cria, em 1962, a Superintendência de
Política Agrária (SUPRA). O órgão tinha como objetivo preparar o caminho
(política e institucionalmente) para a aplicação da reforma agrária [1] [3].
A direita no Brasil também
possuía seu projeto de reforma agrária. A UDN não pretendia alimentar uma
imagem de contrária à reforma agrária para o eleitorado. O partido chegou a
declarar que daria prioridade à reforma agrária no parlamento, mesmo
tradicionalmente se portando como uma defensora dos interesses oligárquicos
agrários. A Igreja (representada pela CNBB) e as Forças Armadas também eram
favoráveis. Em 1962 a CNBB declarou-se a favor das transformações na estrutura
fundiária do país no intuito de defender os valores democráticos e cristãos.
Ainda em 1961, no governo Jânio Quadros, o Instituto Brasileiro de Ação
Democrática (IBAD) realizou um simpósio nacional para tratar de como deveria
ser feita a reforma agrária no país, tomando-a, de antemão, como necessária
para o desenvolvimento econômico. [1] [3].
Essa preocupação latente na
direita brasileira com relação à reforma agrária pode ser entendida, de certa
forma, não apenas como uma contraproposta das ideias dos movimentos de esquerda
no país, mas como um espelho do projeto político norte-americano para a América
Latina, que se configurava como um contra-ataque à revolução cubana. Os EUA
queriam, a todo custo, evitar que "uma nova Cuba" se instaurasse.
A Aliança para o Progresso e
o medo de uma "nova Cuba"
A revolução cubana
intensificou a preocupação dos países latino-americanos com relação à reforma
agrária. Por um lado estavam aqueles que viam a luta cubana pela reforma
agrária um modelo a ser seguido, por outro os grupos que defendiam que o
processo se desse de forma liberal e pacífica.
A Aliança para o Progresso
foi um fator importante no que se refere à intensificação da demanda pela
reforma agrária na América Latina e, mais especificamente, no Brasil.
Depois de anos de
mendicância por um programa norte-americano para a América Latina aos moldes do
Plano Marshall, a Aliança para o Progresso representou, sobretudo, a resposta
para esta demanda. Criado em 1961, o novo programa de ajuda norte-americano
tinha como principal objetivo alavancar o desenvolvimento liberal nos países
latino-americanos, a fim de evitar a ascensão de uma “nova Cuba”. Para isso, o
Presidente Kennedy considerava como necessárias algumas reformas sociais,
dentre as quais a reforma agrária se fazia como uma das mais urgentes.
A reforma agrária passou a
ser, para os EUA, uma ferramenta de combate ao comunismo. Kennedy exigia
"uma reforma agrária mais ou menos radical na América Latina como meio de
impedir o alastramento de guerrilhas do tipo cubano no continente" [2:70].
A direita brasileira,
representada principalmente pela UDN, pela CNBB, pelo Exército, pelo IPES
(Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e pelo IBAD, pensavam num modelo de
reforma agrária semelhante à Aliança para o Progresso.
De que lado estava João Goulart?
Grosso modo, a reforma
agrária como apresentada pela Aliança do Progresso – que também objetivava a
eliminação do regime latifundiário – “não contraditava (...) com as teses
reformistas dos grupos de esquerda com os quais Goulart estava politicamente
comprometido” [2: 71].
O problema crucial estava no
fato do Brasil se submeter às exigências do “imperialismo ianque”. No PTB,
mesmo o líder da esquerda dita mais radical dentro do partido, Leonel Brizola,
mostrava simpatia pelas ideias do Presidente Kennedy. Goulart, contudo, não
poderia cair na lábia dos grupos entreguistas do país – dizia Brizola [2].
O real impasse entre as
frentes de direita, mais aliadas ao ideário norte-americano de reforma agrária,
dizia respeito ao parágrafo 16 do artigo 141 da Constituição Federal de 1946,
que dizia: “É garantido o direito de propriedade, salvo o caso de desapropriação
por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante prévia
e justa indenização em dinheiro” [1:98].
As esquerdas, de um modo
geral, se mostravam contrárias à indenização em dinheiro, argumentando que, se
assim fosse, o processo não se tratava de reforma agrária, mas de uma negociata
de terras. Esse chamado “programa máximo” ganhou força dentro do PTB, que vivia
um acirramento da esquerda mais radical. O PSD, aliado ao governo no Congresso,
era favorável a uma mudança do artigo 141, mas defendia algum tipo de
indenização aos proprietários de terras [1].
Esse conflito de ideias
entre os dois partidos tornava difícil a apresentação de um projeto de reforma
agrária no Congresso e, mais ainda, uma possível aprovação.
Em 1963 Goulart encaminhou à
Câmara dos Deputados um projeto de emenda constitucional que alavancaria a reforma
agrária e propiciaria a indenização por meio de títulos da dívida pública ao
invés de dinheiro. O projeto, portanto, poderia agradar tanto os grupos mais à
esquerda do PTB e o PSD. Favorecia também a exigência de indenização como posta
pela Aliança para o Progresso [2].
O projeto, contudo, foi
denunciado por grupos nacionalistas, principalmente pelo PCB, como sendo de
caráter entreguista e de conciliação com o imperialismo norte-americano [2]. Esta
posição muito se deve ao fato do Presidente Goulart ter feito uma visita
oficial, em abril de 1962, aos Estados Unidos. A mídia e o Congresso
norte-americano deram à visita um tom amigável, o que fez com que as apreensões
dos grupos conservadores fossem reduzidas [1].
A UDN, o principal partido
de direita, decidiu que a Constituição era intocável. O PSD, considerando a
posição da UDN e a pressão de grupos ruralistas vinculados ao partido, muda sua
posição e se torna contrário ao projeto de Goulart [2].
A derrota do projeto
ironicamente representou tanto a vitória da esquerda nacionalista quanto da
direita [2]. Para Goulart, representava claramente uma derrota do que a reforma
agrária poderia representar para o seu governo: o pontapé inicial das demais
reformas de base e o fortalecimento da legitimidade em declínio do seu governo devido
às crises políticas que se intensificavam.
A posterior estratégia de
Goulart em responsabilizar o Congresso Nacional pelo entrave das negociações
referente à reforma agrária, a fim de mudar o foco da opinião pública para que
esta passasse a pressionar e responsabilizar os parlamentares, só intensificou
a crise de governabilidade. O PSD passou a entender que o governo Jango estava
interessado menos na reforma agrária do que no objetivo de esconder as crises
administrativas do seu governo [2].
O fracasso de um acordo
entre as frentes de esquerda representava o fortalecimento das frentes de
direita. Carlos Lacerda, o principal porta-voz da UDN, chegou a ser citado como
uma estrela ascendente pelo embaixador norte-americano Lincoln Gordon em
Washington [2]. O mesmo embaixador que articulou a participação norte-americana no
golpe de 1964. E foi assim que os fatos se deram: dias depois da última
tentativa de Goulart de fazer alavancar a reforma agrária no Brasil, forças
civis e militares conservadoras tomam o poder. A derrota da luta de Goulart por
uma reforma agrária, sobretudo, marca até os dias atuais a situação agrária brasileira.
Referências Bibliográficas:
[1] FERREIRA, Jorge; GOMES,
Angela de Castro. 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
[2] YAMAUTI, Nilson Nobuaki.
A questão da reforma agrária no governo João Goulart. Acta
Scientiarum: Human and Social Sciences, Maringá, v. 27, n. 1, pp. 69-86, 2005.
[3] NATIVIDADE, Melissa de
Miranda. A questão agrária no Brasil no governo João Goulart: uma arena de luta
de classe e intraclasse (1961-1964). Anais do XXVI Simpósio Nacional de
História – ANPUH. São Paulo, julho 2011.
[4] ALEXANDER, Robert J. Nature and Progress of Agrarian Reform in Latin
America. The Journal of Economic History, v. 23, n. 4, pp. 559-573, 1963.





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