Foto: Embrapa
Desde meados dos anos 2000 o Brasil vem buscando posição de liderança internacional nos assuntos relacionados à segurança alimentar e nutricional. As razões para esse novo posicionamento (já abordado em posts anteriores) ainda precisam ser pesquisadas mais a fundo, afinal, por que um país em desenvolvimento, que possui inúmeros problemas sociais domésticos, vai investir seus escassos recursos no exterior?
Respostas simplistas a essa pergunta
– que é da maior importância – devem ser descartas. É preciso buscar respostas
mais objetivas e, talvez, o campo da política externa possa oferecer algumas
pistas.
Tomemos o caso da cooperação
técnica realizada pela Embrapa na África [1]. Atualmente, o escritório da
Embrapa em Gana é responsável por 42 projetos de capacitação técnica em várias
regiões do continente africano, atendendo a mais de 20 países. Os projetos visam
formar recursos humanos e de transferir tecnologia, tendo como um dos principais
objetivos o louvável combate à insegurança alimentar por meio do aumento da capacidade
produtiva.
Mas, pera aí... Não foi o próprio
governo brasileiro que disse que “tecnologia não se dá”? [2] Pois então,
hipóteses de altruísmo ou ‘ideologização’ da política externa brasileira parecem
menos atrativas do que aquelas que podem oferecer ganhos concretos para o país –
ou melhor, para os países, o Brasil e os receptores.
Uma primeira possibilidade é a
exposta por Carlos Santana, coordenador de projetos estruturantes da Secretaria
de Relações Internacionais da Embrapa, “À medida que os países
africanos desenvolvem a agricultura, aumenta a demanda por máquinas e insumos,
criando um efeito multiplicador que passa a gerar essa demanda. Criam-se novos
mercados que não são cativos. Há conhecimentos adquiridos lá que também
utilizaremos aqui” [3].
Por volta dos anos 1960, os Estados Unidos passaram
a promover mundo afora uma nova maneira de se produzir bens agrícolas. Era a
chamada Revolução Verde, que aumentava a produtividade ao utilizar intensamente
insumos científica e tecnologicamente sofisticados. As empresas americanas
estavam, certamente, entre as maiores fornecedoras desses insumos. Será que a
cooperação internacional brasileira tem algo disso?
Outro objetivo que pode sublinhar a cooperação
técnica brasileira é a obtenção de apoio político internacional para o país.
Será que os votos obtidos por Roberto Azevêdo para dirigir a OMC foram
construídos valendo-se do perfil da política externa brasileira, que parece
fornecer ajuda internacional sem impor condicionalidades? Que reivindica um tratamento diferenciado para o tema agroalimentar?
Esse conjunto de questões apenas reforça a
necessidade de entendermos melhor esse novo papel do Brasil na cooperação
internacional que, país de contrastes, fornece ajuda mesmo sem ter o bastante
para si.

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