A Cooperação Técnica entre os Países em
Desenvolvimento (CTPD) tem
sido amplamente implementada pelo Brasil, que vem emergindo e se consolidando
como doador. A CTPD também pode ser chamada de Cooperação Sul-Sul, visto que o
Brasil é um país em desenvolvimento que destina seus projetos de cooperação a
outros países que estão no mesmo patamar.
Para que possamos entender
a CTPD, no entanto, precisamos recorrer ao conceito de Cooperação Técnica Internacional (CTI).
A CTI diz respeito apenas às atividades de capacitação técnica, isto é, transferência
de conhecimentos de um Estado a outro, com o objetivo de consolidar algumas
habilidades técnicas do país receptor, permitindo que este supere alguns
desafios ao desenvolvimento local. Exclui-se da CTI o auxílio financeiro
(Lopes, 2008; Marques, s/d).
A CTI surgiu fincada em
três noções fundamentais: a transferência não-comercial de técnicas e
conhecimentos; desnível quanto ao desenvolvimento alcançado por receptor e
prestador; a execução de projetos em conjunto, envolvendo peritos, treinamento
de pessoal, material bibliográfico, equipamentos, estudos e pesquisas. Seguindo
essas concepções iniciais, a Resolução n° 200 de 1948 da Assembleia Geral das
Nações Unidas instituiu oficialmente a CTI (Cervo, 1994).
Dentro da CTI, está a CTPD. Estas
categorias distinguem-se em função do caráter dos países receptores. Na
primeira, o auxilio para o desenvolvimento alcança qualquer país e baseia-se
precipuamente no financiamento de atividades de capacitação técnica, enquanto a
segunda exige que os projetos tenham, tanto como doador e como recebedor,
apenas países em desenvolvimento.
A CTPD é um processo
multidimensional, que pode ser bilateral ou multilateral em seu escopo,
regional ou inter-regional em seu caráter. Deve ser organizada por e entre
governos, ainda que com a participação de organizações públicas e privadas.
Embora seja um empreendimento entre países em desenvolvimento não se deve
descartar o apoio por parte de países desenvolvidos e organizações
internacionais (Moura JR, 2011). A CTPD inclui também a alternativa conhecida
como cooperação triangular (ou triangulação), que é a coordenação entre dois
doadores (um deles pode ser uma organização pública ou privada) que prestam
cooperação para um terceiro Estado recebedor. O Japão é, hoje, o maior parceiro
do Brasil nos arranjos de triangulação, através da JICA (Agência Japonesa de
Cooperação Internacional). O Fundo de População das Nações Unidas (FNUAP)
também realiza uma importante parceria de CTPD com a ABC (Lopes, 2008).
Luara Lopes (2008) utiliza
a definição do PNUD: “...para ser considerada CTPD a atividade deve
implicar o compartilhamento de expertise
, tecnologia, recursos e capacidades advindas dos países em desenvolvimento
envolvidos na cooperação. Não pode ser considerada CTPD se estiver fundamentada
em recursos ou tecnologias provenientes de países industrializados, que devem
ter papel apenas complementar” (Lopes, 2008, p. 23).
Deve-se entender que a
CTPD não é um fim em si mesmo, muito menos uma substituta para a cooperação
técnica com países desenvolvidos, pois esta é necessária para a continuidade do
desenvolvimento de capacidades nos países em desenvolvimento. A cooperação deve
ser feita seguindo-se o princípio de observância à soberania nacional,
independência econômica, igualdade de direitos e não ingerência nos assuntos
internos das nações (Moura JR, 2011). Dentre seus objetivos, estão:
1)Promoção
da autoconfiança dos países em vias de desenvolvimento, a partir do
aperfeiçoamento de suas capacidades criativas e técnicas para a superação de
seus problemas de desenvolvimento;
2)Promover
e fortalecer a autoconfiança coletiva entre os PVD através da troca de
experiências e do compartilhamento de seus recursos técnicos;
3)Fortalecer
a aptidão dos PVD em identificar a analisar conjuntamente os principais
problemas e impedimentos de seu desenvolvimento (Moura JR, 2011).
O compartilhamento de tecnologias e expertise é um ponto importante contemplado pela CTPD, que permite que países em desenvolvimento vislumbrem certa independência tecnológica em relação aos países desenvolvidos e se vejam mais preparados para construírem seus próprios caminhos em direção ao desenvolvimento. Recorrendo à CTPD, os PD vêm se aproximando, construindo melhores relações e mudando a noção clássica que caracteriza países do Norte como doadores e países do Sul como receptores.
Referências Bibliográficas:
CERVO, Amado Luiz.
Socializando o Desenvolvimento; uma história da cooperação técnica
internacional do Brasil .
Revista Brasileira de Política Internacional, 37 (1): p.37-63. Brasília, 1994
LOPES, Luara Landulpho
Alves. A Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento (CTPD) da Agência
Brasileira de Cooperação (ABC - MRE): O Brasil como doador. Disserrtação
(Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago
Dantas, PUC-SP, 2008.
MARQUES, Sol. A EMBRAPA na
Política de Cooperação Sul-Sul do Brasil. Instituto de Relações Internacionais.
Pp. 1-9, 2011 (s/d).
MOURA JR, José Cláudio
Klein de. A Cooperação Técnica Internacional e a Diversificação da Ação
Internacional do Brasil nos anos 2000. Monografia apresentada para
conseguir diploma a título de especialista em Relações InternacionaisI pela
UNB. Universidade de Brasília. Brasília, 2011.

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