Criado
no primeiro ano da gestão Lula, em 2003, o Programa de Aquisição de Alimentos
(PAA) é uma ferramenta de incentivo à agricultura familiar e combate à fome e à pobreza no Brasil [1]. De forma prática e a grosso modo, o PAA consiste na compra, por
parte do governo, de alimentos de produtores rurais dos mais diversos tipos
(agricultor familiar, assentado da reforma agrária, quilombola, indígena etc)
e, sucessivamente, na doação para entidades de cunho socioassistencial (como
escolas, banco de alimentos, associações e cozinhas comunitárias). O Programa
também prevê a formação de estoques próprios, permitindo a comercialização em momentos mais propícios, isto é, de maior valor agregado [2].
No
Brasil o PAA tem mostrado resultados satisfatórios. Demonstrou eficácia no
combate à fome e à desnutrição, na melhoria dos hábitos alimentares, na
preservação dos hábitos alimentares regionais, no incentivo à produção, no
desenvolvimento da economia local, na diminuição do êxodo rural, entre outros [3].
Esse sucesso tem sido ratificado a medida em que o Programa começou a ser demandado
em nível internacional, a exemplo do PAA África (para saber mais sobre a
implementação e funcionamento do Programa em países do continente africano, ver
esse artigo).
Tendo em vista a eficácia do PAA, integrantes do FomeRI propuseram-se a analisar a realidade paraibana do Programa e os pontos negativos e positivos de sua aplicação no Estado. O blog pretende, portanto, iniciar uma série sobre a experiência paraibana do Programa de
Aquisição de Alimentos. Para isso, integrantes do FomeRI estarão visitando os
municípios paraibanos partícipes para conversar com os agricultores e
entidades, assim como os gestores, a fim de tecer análises qualitativa e
quantitativa que objetivarão demonstrar os resultados do PAA
no Estado. Esse primeiro texto pretende expor alguns dados significativos derivados de observações iniciais sobre o Programa na Paraíba (administração do programa, evolução do programa em números, pessoas e entidades beneficiadas, regiões inclusas, questões de gênero) e servir como base para as análises posteriores de cunho mais específico.
Na Paraíba, o PAA começou a ser implantado em 2011 e é administrado por uma coordenação própria inserida na
Secretária de Estado do Desenvolvimento Humano (SEDH) em parceria com a
EMATER e a EMPASA [4].
No
ano de 2013 o Programa atendeu 48.370 pessoas e 138 entidades e possuía 316
agricultores fornecedores de alimentos. Desde o início, esses números
representaram um aumento de 520%, 270% e 336%, respectivamente. São 13 os
municípios que participam do Programa, o que é um número relativamente baixo se
consideramos que o Estado possui 223. O Estado do Rio Grande do Norte, por
exemplo, que tem um número menor de municípios (um total de 167) já inseria, em
2010, 37 municípios (Oliveira et al, 2010).
Essa
realidade a respeito da quantidade dos municípios participantes do PAA não
corresponde ao que foi anunciado em julho de 2013, quando se previa uma reforma
do Programa e a ampliação para 127 municípios paraibanos. Mais do que isso prognosticava-se
que o número de agricultores beneficiados passaria para 600 num primeiro
momento e para cerca de 2 mil posteriormente [4].
Há
também uma concentração dos municípios em algumas poucas regiões do Estado. Os 13
municípios (Alhandra, Araçagi, Caaporã, Capim, Conde, Cruz do Espírito Santo,
Curral de Cima, Itabaiana, Mamanguape, Pitimbu, São Miguel de Taipu, Sapé e
Sobrado) estão inseridos em apenas seis das 23 Microregiões da Paraíba e
concentrada em apenas duas Mesoregiões: Mata Paraibana e Agreste Paraibano,
ficando de fora a Borborema e o Sertão.
A respeito dos agricultores fornecedores, 78% são agricultores familiares, 13% são assentados da reforma agrária e 9% não responderam ou não se classificaram. Com
relação ao gênero, as mulheres que participam do PAA representam apenas 21% do
total dos agricultores fornecedores de alimentos. Tal número demonstra que o
trabalho no campo continua predominantemente masculino,
enquanto que cabe à mulher o cuidado da casa e dos filhos.
Apesar
desses contrapontos, contudo, os benefícios do Programa ficam visíveis a partir
das falas dos agricultores fornecedores e das entidades cadastradas. O aumento
da renda, a melhoria das condições de moradia, o aumento da área e das
condições de plantio e cultivo da terra, o aumento do uso de tecnologias, a
melhoria nas condições de abastecimento de água e rede de esgoto, o aumento da
quantidade e qualidade dos alimentos são alguns dos cenários em que o PAA
impactou de forma positiva.
Como
fruto das visitas que estão sendo feitas nos municípios participantes do PAA na
Paraíba, na próxima semana a segunda parte exporá as experiências adquiridas por meio do diálogo
entre os agricultores fornecedores e as entidades de Curral de Cima, município
do Litoral Norte do Estado.
*A maioria dos dados quantitativos apresentados foram feitos a partir do banco de dados da SEDH.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
OLIVEIRA,
Alba Barbosa de; TINOCO, Dinah dos Santos; ALLOUFA, Jomária Mata de Lima;
ARAUJO, Richard Medeiros de. Uma Análise do Processo Gestionário do Programa de
Aquisição de Alimentos (PAA): o caso do Rio Grande do Norte. Revista de
Políticas Públicas, vol. 14, n. 1, p. 157-171, jan/jun, 2010.


Nenhum comentário :
Postar um comentário